A história do julgamento e da crucificação de Jesus Cristo é reencenada todos os anos por cristãos em todo o mundo na liturgia da Páscoa. A história tornou-se um artigo essencial de fé e é raramente questionada por estudiosos do Novo Testamento e historiadores. A história completa apareceu pela primeira vez no Evangelho de Marcos do Novo Testamento, seguido por Mateus, Lucas e João. O facto de a história aparecer em todos os quatro evangelhos não indica quatro fontes históricas separadas; Marcos estabeleceu o modelo para a história, enquanto Mateus, Lucas e João acrescentaram variações, bem como material mais recente.

As fontes desta história continuam por apurar. Tem-se assumido sempre que deve ter existido uma tradição oral por detrás dela. Em simultâneo, muitos dos detalhes são validados por referências à história de Israel e às Escrituras Judaicas ao longo de toda a narrativa. As cartas de Paulo (escritas entre as décadas de 50 e 60 d.C.) são também frequentemente invocadas para verificar a informação em Marcos. Contudo, Paulo não estava interessado em acontecimentos históricos; Paulo proclamava o "Cristo ressuscitado" com base na sua visão de Jesus agora no céu. Ler Paulo em busca de evidências dos detalhes continua a ser condicionado pelo facto de já conhecermos a história e, por conseguinte, a lermos retroativamente nas cartas de Paulo.

Na Última Ceia, descrita em Marcos, Mateus e Lucas como tendo ocorrido na primeira noite da Páscoa judaica, milhares de peregrinos afluíam a Jerusalém para a celebração que incluía o ritual do cordeiro sacrificial e a partilha de alimentos. Foi durante esta refeição que Jesus identificou Judas Iscariot como o seu traidor. Embora a celebração da Páscoa por Jesus e pelos seus discípulos seja historicamente plausível, muitos dos restantes pormenores assumem um caráter exagerado. O volume de acontecimentos comprimidos nessa noite e na manhã seguinte gera diversos problemas históricos de enquadramento cronológico e logístico.

Sobre Judas, sabemos virtualmente muito pouco. O nome Judas era popular e refletia um dos heróis nacionais, Judas Macabeu, que ajudou a liderar a Revolta dos Macabeus contra a ocupação grega (167 a.C.). O apelido continua a ser um enigma, embora possa indicar que ele era de Queriote, na Judeia. Existe também a teoria de que se relaciona com a palavra sicarii, os "homens do adaga" entre os Zelotas, a quem muitos culparam pela Revolta Judaica. Ele constava na lista de um dos discípulos originais, mas Lucas e João afirmaram que Satanás o possuiu. Há uma alusão ao Salmo 41:9: "Até o meu amigo íntimo, em quem eu confogia, que comia do meu pão, levantou contra mim o calcanhar."

A história de Judas aparece pela primeira vez no evangelho de S. Marcos (70 d.C.); não encontramos nenhuma evidência anterior de uma história de traição ou deste indivíduo. Em 1 Coríntios 15:5, Paulo enumerou várias aparições de ressurreição de Jesus, escrevendo: "Ele apareceu a Cefas e depois aos doze", mas será que Judas teria sido honrado com uma aparição de ressurreição se tivesse traído Jesus? Em 1 Coríntios 11:23, quando Paulo relatou a fórmula eucarística, começou com: "...na noite em que foi entregue...". Todas as Bíblias em inglês traduzem "handed over" como "betrayed" , mas a palavra grega aqui significa simplesmente "entregue às autoridades" e, portanto, este não é um texto probatório da história de Judas.

Após a refeição, Jesus e os discípulos caminham para um local conhecido como Getsêmani ("prensa de azeitonas"). A narrativa é conhecida como a "Agonia no Horto", onde Jesus orou para conseguir evitar a sua iminente morte e tortura. Visto que os discípulos de Jesus continuavam a adormecer e ele teve de os acordar três vezes, subsiste a questão: quem tomou notas deste episódio? Podemos, no entanto, encontrar um paralelo interessante na história anterior de Aitofel, um conselheiro do rei David que se juntou à rebelião do filho deste, Absalão, contra o rei. Nesta passagem, David tinha procurado refúgio no Monte das Oliveiras (a localização do Getsêmani), "desanimado e a chorar":

Aquitofel disse a Absalão: «Deixa-me escolher doze mil homens, e partirei ainda esta noit a perseguir David. Cairei sobre ele no momento em que estiver extenuado de fadiga; espalharei o pânico e todos os que estão com ele fugirão. O rei ficará sozinho, e então derrubá-lo-ei. (...) Como buscas somente a vida de um homem, todo o povo estará em paz»

(2 Samuel 17:1-3 – Villapadierna, Carlos de (†) et al.. Bíblia Sagrada. 3.ª Ed. Lx: Dif Bíblica (MC), 1968, pág. 495)

Segundo a narrativa de traição dos evangelhos, Judas ofereceu-se para guiar as autoridades judaicas até ao local onde Jesus podia ser preso em segredo naquela noite e traiu-o com um beijo, numa referência a Provérbios 27:6 ("Confiáveis são as feridas feitas pelo que ama, porém os beijos do que odeia são enganosos" / "Sinceras são as feridas de um amigo que fere, mas abundantes são os beijos de um inimigo"). Quando os agentes da prisão — "os principais dos sacerdotes, os escribas e os anciãos" em Marcos, os "principais dos sacerdotes e os anciãos do povo" em Mateus, a "guarda do templo" em Lucas, ou "uma coorte romana" em João — apareceram, os discípulos dispersaram em pânico e abandonaram Jesus à sua sorte, "cumprindo" o que Jesus tinha predito ao longo do seu ministério em Marcos.

Segundo Marcos, Jesus foi levado perante o Sinédrio em pleno, o conselho da cidade de Jerusalém, enquanto em Lucas e João o local é a casa do sumo sacerdote (Anás, o seu genro, e Caifás, seu filho). Marcos e Mateus mencionam apenas um julgamento à noite, ao passo que Lucas incluiu um julgamento separado perante Herodes Antipas (que se encontrava na cidade para a Páscoa), uma vez que Pilatos reconheceu que Jesus era do território de Herodes (a Galileia) e não da Judeia.

O problema aqui é que a Páscoa era uma festividade familiar. Será que todo o Sinédrio (e o sumo sacerdote!) se levantaria e abandonaria as suas famílias, primeiro em grupo para o prender e, segundo, para um julgamento de um taumaturgo galileu? De acordo com a tradição rabínica posterior, a lei judaica proibia julgamentos à noite ou em dias festivos. Se, de facto, considerassem que Jesus e os seus seguidores constituíam de alguma forma uma ameaça ao Templo, podiam simplesmente tê-lo colocado numa cela de detenção até ao fim da festividade.

Marcos afirmou que, quando Jesus foi acusado, as "testemunhas não eram concordantes". Mais uma vez, a Lei judaica determinava que, num tal cenário, o processo teria de ser arquivado. Esta foi a forma encontrada por Marcos para sublinhar que se tratou de um julgamento ilegal e que Jesus foi alvo de uma conspiração. Este constituiu um tema central de Marcos ao longo de todo o ministério: a premissa de que, desde o princípio, os seus opositores (os fariseus e os herodianos) tinham procurado a sua morte.

O sumo sacerdote perguntou então: "És tu o Messias, o filho do Bendito?" E Jesus respondeu: "Eu sou. E vereis o Filho do homem sentado à direita do Poder e vindo com as nuvens do céu" (citando Daniel 7:13-14). O sumo sacerdote rasgou as suas vestes (um sinal de luto), declarou esta afirmação "blasfémia" e o conselho condenou-o à morte. Blasfémia significava difamação. No judaísmo, isto consistia em quebrar um juramento feito em nome de Deus e em idolatria, e o castigo era o apedrejamento. O simples facto de reivindicar o estatuto de "Messias" não era um crime; Josefo (o historiador judeu do século I d.C.) relatou histórias de vários que afirmavam ser o messias e, tanto quanto sabemos, nenhum deles foi executado ao abrigo da lei judaica. Muitos foram executados por Roma, geralmente por terem incitado as multidões contra o governo romano. Marcos sabia como Jesus tinha morrido e, por isso, o enredo exigia que os líderes judeus entregassem Jesus a Roma para ser crucificado.

O evangelho de João apresentou uma razão mais credível para a prisão. Segundo João, a ressurreição de Lázaro agitou a multidão e o sumo sacerdote decidiu que Jesus tinha de ser morto para evitar que os romanos interviessem e fizessem com que parecessem incapazes de controlar as multidões do Templo. Caifás declarou: "Não compreendeis que vos convém que morra um só homem pelo povo, e que não pereça toda a nação" (João 11:50). Isto alinha-se com a história de Aitofel: "Procuras a vida de um só homem, e todo o povo estará em paz".

As cronologias de Jesus situam a sua morte entre 26 e 36 d.C., uma vez que foi nesse período que Pôncio Pilatos exerceu funções na Judeia durante o reinado de Tibério (reinou 14-37 d.C.). Por ocasião de todas as festividades, Pilatos deslocava-se a Jerusalém para supervisionar a ordem pública e a aplicação da lei. Dispomos de duas fontes sobre Pilatos: os escritos de Filo de Alexandre (que escreveu nas décadas de 30 e 40 d.C.) e os de Flávio Josefo. Ambas as fontes enumeram os abusos de poder e a corrupção de Pilatos na Judeia. No entanto, devemos ter sempre cautela na forma como analisamos tais fontes. Ambos os escritores argumentavam que os problemas com a agitação judaica em Jerusalém e noutras cidades eram causados por governadores corruptos, e não pelos judeus.

Marcos afirmou que Pilatos tinha o hábito de libertar um prisioneiro na festividade da Páscoa; contudo, em toda a investigação realizada sobre Pilatos, não existe qualquer evidência disso. O nome do prisioneiro era Barrabás, um nome aramaico que significa "filho do pai". Ironia literária à parte, Marcos fez com que os judeus clamassem pela libertação do "filho do pai" errado. Narrativamente, a história é um completo paradoxo: trata-se porventura da mesma multidão que, poucos dias antes, acolhera Jesus na cidade como o seu libertador? A mesma multidão que os sacerdotes receavam que se revoltasse, obrigando-os a prender Jesus "em segredo" durante a noite? Marcos não fornece quaisquer pormenores sobre a identidade deste grupo nem sobre as razões que os levaram a voltar-se contra Jesus.

O elemento mais importante da apresentação de Pilatos é que ele declarou Jesus inocente (três vezes em Lucas). Mateus fez com que Pilatos lavasse as mãos do assunto e alegou que os judeus tinham entregue Jesus por inveja. Mateus aumentou a acrimónia ao acrescentar: "Todo o povo respondeu: 'O seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos'" (Mateus 27:25). Infelizmente, esta citação foi invocada ao longo dos séculos e até à era moderna para justificar o assassinato de judeus.

A forma como Jesus morreu aponta inequivocamente para a execução reservada aos traidores e rebeldes contra o Estado romano. Para os seus seguidores, reescrever este desfecho político era uma necessidade existencial: o estigma da cruz tinha de ser neutralizado através da absolvição oficial por parte de um magistrado romano, declarando-o inocente de rebelião. Implicitamente, esta exculpação estendia-se também à comunidade de seguidores, distanciando-os do turbilhão político e da culpa associada à recente Revolta Judaica.

É evidente que Marcos e os restantes evangelistas testemunharam crucifixões reais perpetradas por Roma, embora não necessariamente aquela a que dão visibilidade literária. Nos procedimentos crucificários romanos, os condenados eram primeiro açoitados e depois transportavam apenas a trave transversal (patibulum), uma vez que a estrutura completa seria excessivamente pesada; além disso, os soldados dispunham da prerrogativa legal de obrigar qualquer transeunte a carregar o madeiro caso o prisioneiro fraquejasse. O recurso à "esponja com vinagre e fel" servia como um estimulante rudimentar para reanimar a vítima nos momentos de desmaio. A construção narrativa de Marcos absorve metodicamente salmos de lamentação e os cântigos do "Servo Sofredor" do Livro de Isaías, transformando a crônica da execução numa sequência de cumprimento profético rigorosamente pré-ordenada pelas Escrituras.

Marcos também relatou que "os principais dos sacerdotes e os escribas" estavam presentes, a troçar de Jesus. Este é mais um pormenor problemático. Na Páscoa, era obrigatório permanecer livre de contaminação por cadáver durante a semana da festividade. Os sacerdotes não colocariam em risco a sua participação no resto da festa indo literalmente aos campos de extermínio. Trata-se simplesmente de uma construção polémica.

Os romanos crucificavam as vítimas ao longo das estradas que conduziam às cidades, onde serviam de propaganda — eis o que acontece quando vos rebelais contra Roma. Tentavam manter a vítima viva o máximo de tempo possível (daí os estimulantes à base de vinagre) para demonstrar como os rebeldes sofreriam uma tortura extrema. O tempo médio de sobrevivência situava-se, sensivelmente, entre três e cinco dias. A causa da morte resulta de uma combinação entre a incapacidade de se erguer o suficiente para respirar (asfixia), bem como a perda de sangue, a dor e o trauma. Jesus morreu no espaço de três horas. Este pormenor foi impulsionado sobretudo pelo enredo narrativo, de modo a colocá-lo no túmulo antes do início do Sábado, ao pôr do sol. Os preparativos fúnebres não podiam ser concluídos senão após o Sábado, razão pela qual as mulheres se dirigem ao túmulo na manhã de domingo.

Quando Roma punia os criminosos, pretendia que isso durasse pela eternidade; às vítimas de crucificação eram negados os rituais fúnebres tradicionais. A função narrativa de José de Arimateia é assegurar que tal não acontecesse a Jesus. Por outro lado, os magistrados romanos eram notórios por aceitar subornos. João completou este pormenor ao referir que José pediu o corpo a Pilatos (João 19:38).

A tradição colocava Jesus no túmulo durante três dias. No entanto, se contarmos de pôr do sol a pôr do sol (de sexta-feira à noite até domingo de manhã), foi apenas um dia e uma manhã. Apesar disso, todos os evangelhos contêm referências a três dias nas predições, como em Mateus com a sua analogia de Jonas e a baleia. Quando Mateus afirmou que os crentes receberiam um "sinal", era o "sinal de Jonas, no ventre da baleia durante três dias". Os judeus acreditavam que o corpo só começava a decompor-se fisicamente no "quarto dia" após a morte e Jesus não podia emergir com o que teria sido a "contaminação por cadáver".

Podemos nunca ser capazes de responder a essa pergunta com certeza. Podemos tentar uma reconstrução dos eventos prováveis através de tudo o que sabemos sobre o governo do Império Romano nas províncias, das várias questões debatidas entre os judeus na época e dos elementos carregados que estavam no ar na esperança da intervenção final de Deus.

Se Jesus se deslocou a Jerusalém para a Páscoa, é altamente provável que alguns dos seus seguidores o tenham acompanhado e que muitos outros se tenham juntado a ele na cidade. Se os peregrinos o aclamaram como uma figura messiânica, isto decerto acionou os alarmes das legiões e dos sacerdotes face a uma potencial revolta. A combinação de um Jesus a pregar um "reino" alternativo ao de Roma, rodeado por uma multidão de adeptos numa época festiva por excelência, configura o rastilho mais plausível para a sua execução. Quanto a Judas, a verificação de uma traição histórica torna-se intransponível: a sua narrativa está de tal forma enxertada em ecos escriturísticos que se torna árduo separar o facto da ficção literária, sendo plausível a hipótese de que a figura de "Judas" funcione como a personificação alegórica "dos judeus" que recusaram aceitar Jesus como o messias.

Se Jesus tivesse tentado perturbar os serviços no Templo, o sacerdócio, em coordenação prévia com o procurador romano, tê-lo-ia entregue de imediato. Esta seria a extensão de qualquer envolvimento da liderança judaica na morte de Jesus; a festividade impediria quaisquer julgamentos judaicos descritos nos evangelhos. Uma vez entregue, seguir-se-ia a crucificação imediata por parte de Roma. É muito improvável que tenha havido um julgamento perante Pilatos, que também era conhecido por não conceder julgamentos a cidadãos romanos. Iria ele dar-se ao trabalho de fazer um julgamento a um camponês judeu?

Para os seus seguidores, a morte de Jesus deve ter sido um choque enormemente traumático. Para a explicar, fizeram o que todos os judeus tinham feito durante séculos: recorreram às Escrituras em busca de uma resposta e encontraram bodes expiatórios para culpar. Num espaço de 20 anos após a morte de Jesus, os seus seguidores (Pedro, Tiago e João) estabeleceram uma comunidade cristã em Jerusalém. Sabemos isto porque Paulo os visitou lá. Tanto Paulo como Lucas descreveram uma reunião importante dos missionários em Jerusalém, talvez por volta de 49 d.C.

Ao longo das décadas seguintes, os seguidores de Jesus tentaram criar a sua própria identidade face ao judaísmo. Para além dos evangelhos, os textos e as cartas do Novo Testamento utilizaram o argumento de que apenas os cristãos tinham a interpretação correta das Escrituras Judaicas. No século II, a acrimónia intensificou-se à medida que os Padres da Igreja utilizaram o material dos evangelhos para demonizar os judeus como agentes do Diabo, agora acusados da morte de Deus. Esta é a origem do antissemitismo cristão na Idade Média, durante a Reforma e muito para além dela.

Em termos de teologia e espiritualidade, o sofrimento e a morte de Jesus tornaram-se o modelo de sacrifício abnegado e estão no centro da compreensão de como esta morte poderia transformar os crentes. Explorar a historicidade desta história não desafia a fé, mas ler os evangelhos como história sem os critérios que aplicamos à leitura de toda a história antiga continua a ser problemático.