O álcool desempenhava um papel fundamental na cultura nórdica. As pessoas bebiam mais cerveja do que água, uma vez que a bebida tinha de ser fervida durante o processo de fabrico, sendo, por isso, mais segura para consumo. Os nórdicos da Escandinávia tinham quatro tipos principais de bebidas fermentadas: cerveja (ale), hidromel, vinho de fruta e syra (essencialmente leite fermentado). Inicialmente, todas estas bebidas eram produzidas e servidas por mulheres e produzidas no âmbito doméstico, até aos homens se envolveram no processo e este se transformar num empreendimento comercial e, finalmente, religioso, assim que os monges se tornaram cervejeiros.

O vinho de fruta era feito a partir de qualquer fruto disponível; já o vinho de uva era importado da Germânia ou da Frância sendo extremamente dispendioso. Odin, o rei dos deuses, bebia apenas vinho e era o deus do álcool, entre outras atribuições, mas o hidromel era considerado a bebida dos deuses,que transformava qualquer pessoa que o bebesse num poeta ou num sábio. O álcool era importante para os nórdicos, que constituía um elemento indispensável na formalização de tratados, transações de terras, casamentos e na concretização do testamento dos falecidos nos funerais. Mesmo após a cristianização da Escandinávia, o álcool continuou a ter um valor cultural determinante.

A produção e o serviço de bebidas alcoólicas eram, inicialmente, tarefas femininas, e qualquer mestre cervejeiro seria uma mulher. Acabaria por surgir, em determinado momento anterior ao século XI (altura em que começam a surgir provas documentais sobre o tema), a presença de homens também na atividade. No entanto, as mulheres continuaram envolvidas na produção e, sobretudo, no serviço do álcool. O historiador Mark Forsyth assinala:

Servir bebidas era o papel definidor das mulheres na Era Viking. Na poesia, não se chamava «mulher» a uma mulher; chamava-se-lhe simplesmente «servidora de bebidas». Existe um manual de poesia do século XIII para o aspirante a bardo que determina o seguinte: «Uma mulher deve ser referida em função de todos os tipos de trajes femininos, ouro e pedras preciosas, bem como da cerveja, do vinho e de outras bebidas que derrama e serve; do mesmo modo, deve ser referida em função dos recipientes para a cerveja e de todas as coisas que seja adequado ela fazer ou fornecer.»

(pág. 123)

O hidromel, a cerveja e o vinho eram todos produzidos da mesma forma. Enchia-se uma tina com água, colocava-se sobre o fogo e, em seguida, adicionavam-se mel e levedura (para o hidromel); deixava-se a mistura ferver e, depois, posicionava-se a tina aberta debaixo de uma árvore de fruto para captar as leveduras selvagens. Se se quisesse fazer cerveja, omitia-se o mel e substituía-se por cevada maltada e, para fazer vinho, usava-se fruta em vez de cevada. O teor alcoólico era regulado pela quantidade de açúcar adicionado, usando a seiva das árvores.

A tina não era hermética, pelo que não havia carbonatação. A bebida ficava a repousar durante um período indeterminado de tempo e depois era coada para jarros de cerâmica, onde era armazenada para consumo posterior ou venda. As borras de cevada ou de mistura de mel e ervas que ficavam na tina eram utilizadas para fazer a barneol, uma cerveja mais fraca (com menor teor alcoólico) destinada às crianças. Todas estas bebidas eram ácidas porque fermentavam ao ar livre, o que permitia a contaminação bacteriana, mas nenhuma parece ter sido tão azeda nem de tão mau sabor como a syra.

A syra era feita a partir de leite desnatado e coalho (leite coalhado vindo do estômago de um vitelo recém-nascido). O vitelo era morto antes de ter ingerido qualquer outra coisa além do leite materno e o estômago era removido e pendurado a secar ainda com o leite no seu interior. Depois de seco, era colocado numa tina de água salgada ou soro de leite durante duas semanas. Em seguida, era transferido para outra tina, misturado com leite desnatado fervido e deixado a arrefecer (Fernando-Guerro-Rodriguez, págs. 19-20).

Esta mistura era conhecida como misa (definida alternativamente como um tipo de leitelho ou leite coalhado), a qual constituía um alimento popular; o subproduto do processo de confeção da misa era a syra, o líquido retirado da superfície da misa após esta ter arrefecido. A syra era deixada a fermentar durante cerca de dois anos antes de poder ser servida. É dita como sendo altamente ácida e, embora fosse consumida com frequência, não parece ter sido muito apreciada. Não se serviria syra a um convidado de honra, por exemplo, visto ser considerada a bebida das classes mais baixas, que não tinham possibilidades para comprar hidromel ou cerveja.

Todos bebiam cerveja e, ao que parece, diariamente. O álcool era uma dádiva dos deuses e, tal como os deuses o tinham partilhado com os humanos, esperava-se que as pessoas o partilhassem umas com as outras. O exemplo mais famoso disto é a festa conhecida como sumbl, um convívio de celebração e bebida promovido por um chefe tribal no seu salão de hidromel, exemplificado no poema Beowulf (cerca de 700-1000), onde Hrothgar acolhe um sumbl para os seus guerreiros.

O salão de hidromel era mais do que um simples local de reunião; era um símbolo de prestígio e poder. Qualquer aspirante a chefe que quisesse obter o respeito dos seus seguidores precisava de construir um salão de hidromel e abastecê-lo com a melhor bebida. As borras fermentadas de um bom fabrico eram bastante valiosas e reutilizadas para produzir a seguinte. O sumbl seria a ocasião ideal para ostentar uma cerveja ou hidromel de excelência.

Num sumbl, a mulher do chefe dava início às festividades servindo a primeira bebida ao seu marido. Em seguida, servia os guerreiros de maior patente e, posteriormente, os restantes convidados. Forsyth escreve:

Precisava-se de uma rainha porque as mulheres eram uma parte bastante importante do banquete no salão de hidromel. As mulheres — ou «tecedeiras da paz», como os Vikings lhes chamavam — eram quem mantinha o caráter formal do banquete, quem suavizava a atmosfera ruidosa e proporcionava uma dose saudável de calma feminina. Eram elas que estavam encarregadas da logística do sumbl.

(págs. 122-123)

As primeiras três bebidas da noite eram em honra dos deuses, com a primeira a ser sempre dedicada a Odin, independentemente de quais se seguissem. Ter-se-ão feito brindes a Odin, Thor e Freyr, embora Forsyth apresente outra combinação — Odin (no seu papel de Pai de Todos e deus do álcool), Njord (deus do mar) e Freyja (deusa da fertilidade) —, o que é bastante provável, tendo em conta a enorme importância do álcool, da navegação marítima e da agricultura para os nórdicos.

À medida que a noite avançava e as pessoas bebiam mais, contavam-se histórias que incluíam jactâncias sobre grandes feitos. O bragarfull era um copo especial sobre o qual se prestavam juramentos vinculativos. Forsyth nota que «não havia a menor possibilidade de nos desculparmos na manhã seguinte dizendo, como faríamos hoje, que era apenas a bebida a falar. Na verdade, o inverso é que era o caso» (pág. 126). Como a bebida provinha dos deuses, tudo o que se dizia em estado de embriaguez era considerado verdadeiro, sagrado e levado totalmente a sério. Tudo aquilo que alguém jurasse fazer ao beber do bragarfull tinha de ser cumprido num prazo razoável assim que a pessoa estivesse sóbria.

O sumbl incluía também a troca de presentes da parte do chefe aos seus guerreiros e convidados, e, no final, todos adormeciam no salão. No poema Beowulf, o sumbl proporciona a Grendel a oportunidade de assassinar os guerreiros com facilidade, pois sabe que estarão todos num sono profundo provocado pela bebida e não oferecerão qualquer resistência. Beowulf só consegue derrotar Grendel ao manter-se sóbrio durante o sumbl fingindo estar a dormir.

Além do sumbl, existiam muitas outras ocasiões para beber excessivamente. Os casamentos eram celebrados com álcool, tal como acontece hoje em dia, e a cerveja desempenhava um papel fundamental nos funerais. O banquete fúnebre era conhecido como Erfi ou, mais vulgarmente, Sjaund (que era também o nome da cerveja servida). A família do falecido reunia-se com os credores do morto e liquidava quaisquer dívidas. Os bens pessoais do falecido eram então distribuídos pelos herdeiros.

No entanto, poderiam surgir disputas sobre quem deveria receber o quê, e considerava-se que ter cerveja à mão era a melhor solução para este problema, uma vez que tornaria as pessoas mais bem-dispostas e tolerantes. Ainda assim, como assinala o especialista Martin J. Dougherty, a cerveja nem sempre funcionava e o sjaund «nem sempre era um processo particularmente amigável, podendo dar origem a contendas» (pág. 43). A cerveja, ao que parece, também podia ter o efeito indesejado — embora previsível — de incitar a discussões.

Os contratos comerciais, os negócios de terras e os tratados eram todos selados com bebidas — e as evidências parecem demonstrar que se tratava de várias bebidas e não de um mero gesto simbólico de um único copo —, o que demonstra a confiança e o respeito mútuos. O vinho era utilizado por reis e nobres que o podiam adquirir, mas a bebida mais popular e prestigiante para oferecer num convívio era o hidromel, considerado tão importante que constituiu a base de um dos contos mais populares sobre Odin e as suas aventuras.

O hidromel é mencionado frequentemente nos mitos nórdicos. Em Valhala, que é um permanente e perpétuo sumbl presidido por Odin, os einherjar (termo no nórdico antigo para «aqueles que lutam sozinhos», as almas dos guerreiros mortos em batalha) bebem hidromel continuamente enquanto combatem entre si em preparação para a grande batalha do Ragnarök, no fim do mundo. O hidromel de Valhala jorra das tetas da cabra Heiðrún, que se alimenta das folhas místicas da árvore Læraðr e produz o melhor hidromel, límpido e sem qualquer resíduo.

A história mais famosa sobre o hidromel, contudo, é a do Hidromel da Poesia. Este conto começa no final da guerra entre os deuses conhecidos como Aesir, de Asgard, e os Vanir, de Vanaheim. Para selar a paz, os deuses de ambos os lados cuspiram para uma tina e, não querendo perder este gesto de boa vontade, pegaram na saliva e criaram um homem chamado Kvasir. Kvasir era tão sábio que conseguia responder a qualquer pergunta sobre todos os assuntos.

Kvasir deixou o reino dos deuses e partiu pelo mundo a ensinar as pessoas e a responder às suas dúvidas. Chegou a casa de dois anões, Fjalar e Galar, que lhe disseram ter uma pergunta, mas acabaram por o assassinar e escoar o seu sangue para duas tinas (conhecidas como Són e Boðn) e um caldeirão chamado Óðrerir. Misturaram depois mel com o sangue e produziram um hidromel mágico que concedia a quem o bebesse o dom da poesia e do saber (uma vez que, na cultura nórdica, a poesia estava associada à sabedoria e ao intelecto). Quando os Aesir vieram à procura de Kvasir, os anões disseram-lhes que ele se tinha engasgado até à morte no seu próprio conhecimento, por não haver ninguém por perto que lhe fizesse perguntas.

Os anões, que apreciavam a malícia acima de qualquer outra coisa, convidaram mais tarde o gigante Gilling para ir andar de barco com eles. Já na água, viraram a embarcação para que ele caísse e, como não sabia nadar, acabou por se afogar. Fjalar e Galar remaram de volta a casa e informaram a mulher de Gilling sobre a sua morte. Ela chorou tão alto que irritou Fjalar, o qual pediu a Galar que lhe deixasse cair uma mó de moinho na cabeça, matando-a. O filho de Gilling, Suttungr, soube da morte dos pais, dirigiu-se à casa dos anões, agarrou em ambos e abandonou-os num recife de rochas que ficaria submerso com a maré alta. Os anões imploraram pelas suas vidas e prometeram-lhe o hidromel mágico caso os poupasse. Suttungr aceitou, levou o hidromel para a sua casa na montanha e escondeu-o no quarto da sua filha Gunnlöð.

Odin toma conhecimento do hidromel e parte à sua procura. Chega a um local onde encontra nove escravos a ceifar palha com gadelhas cegas e oferece-se para as afiar com a sua pedra de amolar. Os escravos ficam radiantes e querem comprar a pedra, mas Odin atira-a para o ar e, quando os escravos, munidos das suas gadelhas agora afiadíssimas, correm para a apanhar, cortam acidentalmente as gargantas uns aos outros.

Os escravos pertenciam ao gigante Baugi, irmão de Suttungr. Quando Odin chega à sua casa e pede alojamento para a noite, Baugi lamenta a perda dos seus servos, que se tinham matado misteriosamente uns aos outros. Odin, que viaja sob o nome de Bölverkr (que significa «praticante de más ações») e se encontra disfarçado, diz a Baugi que consegue fazer o trabalho dos nove escravos, mas exige como pagamento apenas um golo do hidromel de Suttungr. Durante todo o verão, Bölverkr-Odin realiza as tarefas dos nove escravos e, no outono, pede a Baugi a sua recompensa.

Ambos dirigem-se a casa de Suttungr, onde Baugi apresenta a sua causa, mas Suttungr recusa-se a abdicar de uma gota do hidromel. Bölverkr-Odin recusa-se a ser repelido tão facilmente e, após fingir que se vai embora, tira a verruma mágica Rati e diz a Baugi para perfurar a montanha onde Suttungr habita. Baugi tenta enganar Bölverkr-Odin, mas sem sucesso; o deus transforma-se então numa serpente e esgueira-se pelo buraco até ao quarto de Gunnlöð. Sedu-la e permanece com ela durante três noites, persuadindo-a suavemente a dar-lhe um golo da bebida. Ela acaba por concordar que ele pode dar três golos, um por cada noite que passaram juntos.

Bölverkr-Odin recebe as duas tinas e o caldeirão; primeiro bebe o caldeirão inteiro e, em seguida, esvazia as duas tinas. Antes que Gunnlöð possa fazer algo para o travar, transforma-se numa águia e voa rapidamente em direção a Asgard. Suttungr avista-o, percebe o que aconteceu e transforma-se também numa águia para o perseguir. Odin, sob a forma de águia, voa para salvar a vida quando é visto pelos habitantes de Asgard, que compreendem que ele teve sucesso no roubo do hidromel. Rapidamente reúnem várias tinas no pátio da cidade e, assim que Odin chega, expele o hidromel para dentro delas.

Contudo, Suttungr vem no seu encalço, e Odin acaba por expelir alguma quantidade de hidromel como excremento. Suttungr afasta-se, e este «hidromel excremento» torna-se a porção destinada aos maus poetas. Qualquer pessoa que tente escrever poesia (ou manter uma conversa inteligente) e fracasse, bebeu deste hidromel. O hidromel recolhido nas tinas é o Hidromel da Poesia, o qual Odin entrega aos Aesir que, por sua vez, o partilham com os grandes poetas de Midgard que cantarão os seus louvores.

Esta história é contada no Skáldskaparmál (A Linguagem da Poesia) da Edda em Prosa, uma obra do século XIII que recorre a material nórdico mais antigo. Uma versão da história é igualmente narrada no poema édico Hávamál (As Palavras do Altíssimo) e vários dos seus elementos surgem representados em gravuras. O académico Rudolf Simek assinala que existem pelo menos estas duas e, possivelmente, uma terceira versão do mito, além das suas representações em pedras na Escandinávia, afirmando que, «assim, a continuidade no conhecimento deste mito é documentalmente evidente ao longo de um período de 500 anos, e a sua popularidade é patente nas inúmeras referências na poesia escalda (poesia escáldica)» (pág. 209).

A popularidade do hidromel e a elevada estima em que era tido deram origem ao mito, que, por sua vez, popularizou ainda mais a bebida. O hidromel, a cerveja e o álcool em geral continuaram a ser um aspeto tão vital da cultura nórdica que nem mesmo as tentativas posteriores de proibição por parte dos reis nórdico-cristãos conseguiram afastar o povo da sua ingestão.

Na Noruega, tanto o Rei Olavo (mais tarde Santo Olavo, reinou 1014-cerca de 1029) como Érico Magnusson (Érico II, reinou 1280-1299) tentaram controlar o fabrico e a venda de álcool para proveito próprio. Olavo proibiu a venda de grãos, cereais e malte do oeste para o norte da Noruega num esforço para subjugar os senhores do norte. Um deles, Asbjörn Sigurdsson, dirigiu-se ao oeste para contornar o embargo, uma vez que precisava de produzir cerveja para o banquete fúnebre do pai.

Asbjörn conseguiu comprar provisões aos escravos do seu tio Erling Skjalgsson, mas estas foram confiscadas por Sel-Thorir, o mordomo de Olavo. Mais tarde, Asbjörn regressou ao solar de Sel-Thorir enquanto Olavo se encontrava no local e assassinou o mordomo (ficando por isso conhecido mais tarde como Asbjörn Selsbani, ou o Magoador de Sel). Acredita-se que este evento, ocorrido em 1023, esteja diretamente ligado à perda de poder de Olavo e ao seu eventual falecimento em 1030. Presume-se que, consumada a vingança, Asbjörn tenha prosseguido com o fabrico da sua cerveja.

Em 1295, Érico Magnusson promulgou um decreto que proibia a produção e a venda de bebidas alcoólicas, bem como festas de convívio para beber, fora das tavernas estabelecidas e reconhecidas. Embora não se saiba quantas pessoas encontraram formas de contornar esta lei, um grupo em particular destacou-se pela sua engenhosidade. Os monges da Noruega alegaram que precisavam de poder produzir cerveja para fins religiosos e para a saúde das suas comunidades, tendo-lhes sido, por isso, concedido esse direito.

Tanto a cerveja comum como a ale eram utilizadas nos batismos e na comunhão sob diversas circunstâncias (pouco claras), e um determinado padre ficou conhecido como Thorinn do Barril, quer pelos seus dotes na produção, quer pela sua habilidade no consumo da bebida (Fernando-Guerro-Rodriguez, págs. 53-54). Deste modo, o povo da Noruega continuou a usufruir do álcool nos seus casamentos, funerais, transações comerciais e festividades, mesmo após o triunfo do cristianismo sobre a religião nórdica; a única diferença era que, a partir de então, a bebida passara a ser produzida e abençoada pelo clero cristão.