A peregrinação no Império Bizantino implicava que os fiéis cristãos percorressem, muitas vezes, distâncias enormes para visitar locais sagrados como Jerusalém ou para ver pessoalmente relíquias de figuras sagradas e ícones milagrosos expostos desde Tessalónica até Antioquia. Surgiram assim rotas muito percorridas, ao longo das quais pontos de paragem regulares permitiam aos peregrinos dormir, comer e receber cuidados numa rede de mosteiros e igrejas. Para muitos peregrinos, esta viagem era a última que alguma vez fariam, e Jerusalém, em especial, tornou-se um local onde os hospitais e os asilos acolhiam os fiéis até estes serem sepultados nos túmulos que tinham reservado antecipadamente, para que pudessem repousar em paz no próprio centro do mundo cristão.

Santa Helena, mãe de Constantino I (reinou 306-337), foi uma das grandes fundadoras de igrejas, nomeadamente em Jerusalém e Belém, e foi durante a sua visita à Terra Santa em 326 que afirmou ter descoberto a Verdadeira Cruz, ou seja, a cruz de madeira em que Jesus Cristo foi crucificado. Helena é amplamente reconhecida como uma das figuras mais importantes na popularização da peregrinação entre os cristãos devotos. A prática recebeu um novo impulso quando o próprio Constantino visitou Jerusalém em 335.

A peregrinação ganhou verdadeiramente impulso nos séculos V e VI, à medida que outros locais sagrados surgiram por todo o império. Era motivo para os cristãos deixarem as suas casas e percorrerem grandes distâncias: os restos mortais, as peças de vestuário e os túmulos associados a figuras sagradas, famosas obras de arte sacras e o seu potencial para operar milagres, as águas curativas de santuários sagrados e até mesmo famosos santos ainda vivos. A peregrinação no período bizantino, no entanto, não consistia tanto em realizar uma viagem árdua que tivesse valor em si mesma, mas sim em chegar a um destino final e poder ver e venerar pessoalmente os tesouros do cristianismo, estar efetivamente, por algum tempo, nos locais onde coisas maravilhosas tinham ocorrido num passado distante e, ao fazê-lo, reafirmar a própria fé.

Os planos de viagem dos peregrinos foram perturbados, se não mesmo interrompidos, pela conquista árabe do Levante em meados do século VII. Os exércitos bizantinos reconquistaram partes do Médio Oriente no século X, e os cruzados também garantiram que um fluxo constante de peregrinos pudesse continuar a realizar a árdua viagem até à Terra Santa. Constantinopla era igualmente uma grande atração para peregrinos provenientes tanto de dentro como de fora dos territórios do império, e assim permaneceu até ao século XV.

A peregrinação desenvolveu-se no período bizantino a tal ponto que foram traçados itinerários completos que abrangiam toda a parte oriental do império. A Terra Santa era, naturalmente, o destino mais importante e popular para os peregrinos. Jerusalém era considerada pelos cristãos como o centro do mundo. O relato mais antigo que sobreviveu de uma peregrinação cristã a Jerusalém é de um peregrino de Bordéus que registou as suas viagens em 333 (Itinerário de Bordéus - tít. original: Itinerarium Burdigalense). A cidade ganhou verdadeiramente destaque como destino de peregrinação na sequência do programa de construção de edifícios sagrados levado a cabo por Constantino I no século IV. O imperador mandou erigir santuários sumptuosos no Santo Sepulcro, no Gólgota, onde Cristo foi crucificado e posteriormente sepultado, no Monte das Oliveiras, onde ocorreu a Ascensão, e na gruta da Natividade, em Belém.

Outros locais de interesse em Jerusalém incluíam o local da Ressurreição, o Getsêmani, onde Cristo rezou na véspera da sua morte, a igreja da Santa Sabedoria, onde Cristo foi condenado, o local de nascimento de Santa Maria e o seu túmulo, a gruta da Última Ceia e os túmulos de Simeão e Tiago. Só no século IV já existiam cerca de 34 locais a visitar na cidade e nos seus arredores, e este número só cresceu ao longo dos séculos, com a construção de cada vez mais igrejas, em especial. Para além de Belém, outros locais fora da cidade incluíam o túmulo de Lázaro, em Betânia. Havia também relíquias para ver, tais como os próprios jarros que Jesus tinha usado para transformar água em vinho em Caná e o caderno que tinha usado quando era criança em Nazaré.

Para muitos peregrinos, bastava visitar a Terra Santa e não pensavam em regressar a casa. Muitos dos fiéis desejavam passar ali os seus últimos dias, e surgiram hospícios e mosteiros para os acolher. Alugavam-se casas e construíam-se túmulos, o que ajudava a Igreja a cumprir a sua obra de caridade para com os peregrinos que não tinham meios para pagar a estadia.

Embora o destino final de muitos peregrinos pudesse ter sido Jerusalém, havia, ao longo do caminho, muitas outras paragens de interesse, tais como santuários erigidos em honra de figuras cristãs importantes. Estes santuários, dedicados a santos, mártires e a quem tenha testemunhado o ministério de Cristo, eram normalmente abrigados em edifícios impressionantes ou faziam parte de mosteiros que cuidavam dos santuários e ofereciam alojamento aos peregrinos cansados. Os viajantes precisavam de muitas paragens porque a sua viagem era lenta, uma vez que se limitavam a caminhar ou a andar de burro. Os navios faziam a viagem mais rapidamente, mas mesmo quando chegavam à Terra Santa, ainda havia grandes distâncias a percorrer. Por exemplo, uma viagem de Jerusalém ao Monte Sinai, onde Moisés viu a sarça ardente e recebeu os Dez Mandamentos, podia demorar duas semanas.

Os locais de peregrinação angariavam fundos cobrando aos peregrinos pela sua alimentação e alojamento, arrendando terras de que eram proprietários e recebendo donativos, bem como a isenção de impostos, e a venda das recordações para peregrinos mencionadas infra.

Os restos mortais do apóstolo Tomé fizeram de Edessa, na Síria, um local de peregrinação popular, que também possuía o precioso Mandílio, um pano sagrado com a imagem de Cristo impressa. A imagem foi reproduzida em muitas pinturas murais e cúpulas de igrejas por toda a cristandade, tornando-se a representação padrão conhecida como «Pantocrator» (Todo-Governante), com Cristo de frente, segurando um livro do Evangelho na mão esquerda e abençoando com a direita. Na sequência do cerco à cidade em 944, o Mandílio foi levado para o palácio real em Constantinopla.

Desde o final do século IV, Abu Mina, perto de Alexandria, era um importante local de peregrinação, devido ao túmulo de São Menas, um mártir que morreu durante o reinado de Diocleciano (284-305). O sítio era um martírio típico ou túmulo de mártir, com várias basílicas esplêndidas erguidas ao seu redor. Especialmente popular nos séculos V e VI, Abu Mina, tal como muitos outros locais semelhantes, demonstra que os santuários cristãos eram frequentemente apoiados pelo mecenato imperial.

Qal'at Seman, a norte de Antioquia, era outra atração popular, pois foi ali que o famoso asceta Simeão, o Estilita, o Velho (cerca de 389-459) permaneceu em pé na sua coluna durante 30 anos, a fim de melhor contemplar Deus. Quando Simeão faleceu, o local tornou-se um centro de peregrinação, com uma igreja octogonal, dois mosteiros, várias estalagens e quatro basílicas construídas em torno da coluna original.

Éfeso era tradicionalmente considerada a terra natal de várias figuras sagradas importantes do cristianismo: São João Evangelista, São Timóteo e Maria Madalena. Todos tinham santuários importantes nos arredores da cidade, e o túmulo de João era especialmente popular, pois acreditava-se que o pó que supostamente emanava regularmente das suas fendas era um remédio para todos os males. Havia também a pedra vermelha que, segundo se dizia, tinha sido usada por José de Arimatéia quando lavou o corpo de Cristo antes do sepultamento, um pedaço da Verdadeira Cruz que João, o Evangelista, tinha usado ao pescoço e a atração adicional da gruta dos Sete Dormentes: sete jovens cristãos que, sob perseguição em meados do século III, se tinham escondido numa gruta e, milagrosamente, dormiram ali durante dois séculos antes de reaparecerem no mundo.

Outros grandes locais de peregrinação figuravam na lista de qualquer peregrino devoto (juntamente com as respetivas figuras sagradas), incluindo Seleêucia no sul da Ásia Menor (Santa Tecla) com os seus impressionantes mosteiros fortificados, Hierápolis na Síria (São Filipe, o Apóstolo), Euchaíta na Ásia Menor central (São Teodoro), Mira no sudeste da Ásia Menor (São Nicolau), Roma (São Paulo e São Pedro) e Salónica, onde São Demétrio contava com uma colossal basílica em sua dedicação.

Por fim, Constantinopla era, naturalmente, um importante ponto de peregrinação, sobretudo porque os imperadores retiravam progressivamente as relíquias de outras cidades. Jerusalém, por exemplo, foi saqueada quando se tornou cada vez mais ameaçada pelos califados árabes. O Mandílio e a Verdadeira Cruz, como já foi referido, acabaram por chegar à capital bizantina, tal como a Coroa de Espinhos, o sudário, o cinto e o véu da Virgem Maria, e as relíquias dos apóstolos Lucas, Timóteo e André. Havia também muitos ícones para se ver, nomeadamente o primeiro de que se diz ter sido pintado por São Lucas. De facto, a cidade adquiriu tais riquezas eclesiásticas que ficou conhecida como a Nova Jerusalém. Constantinopla pode ter perdido muitos dos seus tesouros em 1204, durante a Quarta Cruzada, mas adquiriu outras relíquias ao longo do tempo e continuou a ser uma atração para os peregrinos, especialmente da Rússia, até ao século XV.

Para aqueles que não conseguiam chegar até ao Médio Oriente ou a um dos outros locais importantes, havia pelo menos a oportunidade de ver relíquias e recordações em santuários noutros locais. Eram feitos receptáculos ornamentados (relicários) e expostos em santuários e igrejas por todo o império, que continham, por exemplo, uma porção de terra do Monte das Oliveiras. Entre as relíquias ainda mais sagradas contavam-se fragmentos dos ossos ou das vestes dos mártires, ou pedaços de madeira e pregos da Verdadeira Cruz que Santa Helena tinha trazido para Constantinopla e que, posteriormente, se espalharam por toda a cristandade. Estes objetos extremamente sagrados nem sempre estavam expostos ao público, ou pelo menos não de forma permanente, pelo que, quando eram apresentados ao olhar do público nas suas caixas cravejadas de pedras preciosas e ampolas de prata ornamentadas, o efeito era ainda mais hipnotizante. Essas raras procissões públicas de relíquias e ícones, que talvez ocorressem apenas uma vez por ano, constituíam, por si só, um íman para os peregrinos.

Como as relíquias sagradas de primeira mão, extremamente especiais, eram obviamente escassas, surgiu toda uma gama secundária de semi-relíquias (brandea), constituída por objetos que tinham estado em contacto com as relíquias sagradas originais, sendo o óleo um excelente exemplo. Até mesmo as representações de figuras sagradas podiam assumir um significado espiritual próprio. É frequente encontrar registos de ícones que sangraram ou choraram milagrosamente, cujos olhos se moveram ou cuja auréola brilhou, tudo em resposta às orações de um crente. Seja qual for a forma, o acesso às relíquias e aos seus derivados permitia aos peregrinos e crentes sentirem-se um pouco mais próximos das figuras sagradas que veneravam.

Os peregrinos podiam comprar lembranças para levar para casa em muitos locais sagrados, sendo as mais populares o óleo, a água ou a terra abençoados, provenientes do próprio local sagrado ou que tivessem estado em contacto com uma relíquia sagrada. Estes líquidos eram guardados em garrafas circulares achatadas características, conhecidas comoampola (frascos) de peregrino (ampullae). Muitas vezes ricamente decoradas, eram geralmente feitas de terracota, mas as de melhor qualidade eram fabricadas com estanho e chumbo. Muitos acreditavam que a substância contida nos frascos funcionava como um amuleto, um remédio ou uma cura milagrosa.

Outra lembrança, utilizada para fins muito semelhantes aos das ampolas, eram os pequenos discos feitos de terra prensada que tinha sido previamente santificada. Estes medalhões eram decorados com uma bênção estampada ou com a imagem de um santo. No caso dos peregrinos de Simeão, o Estilita, estes recebiam pequenas placas estampadas com a imagem do asceta. Painéis pintados, painéis de marfim e gravuras eram igualmente adquiridos, pois acreditava-se que, tal como os medalhões, todos eles tinham, de alguma forma, estado em contacto com uma pessoa santa — quer por terem estado diretamente em contacto com o túmulo ou as relíquias da pessoa, quer simplesmente por representarem a figura e terem vindo do próprio local sagrado. Por fim, para quem dispunha de mais recursos, havia o enkolpion (encólpio), um colar ornamentado que continha um ícone ou até mesmo um fragmento real de uma relíquia sagrada. Para os peregrinos, todos estes objetos funcionavam como uma ligação tangível ao divino, e acreditava-se que protegiam quem os possuía e garantiam que superassem os perigos das viagens da época e regressassem finalmente a casa em segurança.