Já no século X a.C., a religião israelita e judaíta começou a emergir no âmbito da cultura semítica ocidental mais vasta, também conhecida como cultura cananaia. Entre os séculos X e VII a.C., a religião dos antigos israelitas e judaítas era politeísta. Este politeísmo, contudo, era contrabalançado pela devoção a uma ou duas divindades principais, uma prática conhecida como henoteísmo. O henoteísmo consiste no reconhecimento e no culto de várias divindades; todavia, a adoração principal centra-se numa única divindade. Nas comunidades judaítas e israelitas, a devoção principal dirigia-se, amiúde, a Javé. Como tanto Judá como Israel eram Estados em emergência, Javé era a divindade nacional, uma ideia cujas origens remontam às práticas religiosas da Idade do Bronze.

Em termos de prática, o culto no templo e os rituais de sacrifício, como o Yom Kippur, os festivais da Lua Nova, o Pessach e outras festas, desempenhavam um papel central. Práticas como a adivinhação e a profecia eram também formas comuns de devoção religiosa. Em termos de ações, o comportamento ético desempenhava um papel importante na forma como os antigos israelitas e judeus expressavam a devoção religiosa.

Entre os séculos X e VII a.C., a religião do antigo Israel e de Judá desenvolvia-se em contextos cúlticos e templários. Embora as muitas tradições judaicas e cristãs sugiram que Javé foi a principal e única divindade ao longo de toda a história religiosa israelita e judaíta, a arqueologia, as inscrições e a própria Bíblia Hebraica indicam o contrário. Ainda assim, entendia-se que a divindade adorada — habitualmente Javé — estava fisicamente presente no templo, possuía um corpo e era um deus pessoal com emoções e vontade própria.

Além disso, a antiga religião israelita e judaica partilhava a ideia comum de que a divindade era uma essência divina, frequentemente expressa através da noção de santidade. Assim, exigia-se aos fiéis que mantivessem a santidade do templo para que a divindade pudesse habitar no templo, que era considerado a sua casa. Para tal, eram oferecidos sacrifícios, oferendas e liturgia às divindades. Em termos gerais, estes elementos constituem um quadro básico da forma como os antigos israelitas e judeus expressavam a sua devoção religiosa à sua divindade.

Antes de uma autoridade centralizada ou Estado começar a ganhar forma por volta do século X a.C., as populações da região de Canaã praticavam uma forma de religião familiar. A literatura que remonta ao século XII a.C. (1200 a.C.; as Cartas de Amarna) e diversas inscrições por toda a região demonstram-no. Os dados, contudo, são fragmentários. Por outras palavras, é como se tivéssemos 400 peças de um puzzle de 2 000 peças.

No entanto, quando relacionamos o quebra-cabeças com outras fontes históricas, torna-se claro que a religião familiar era a norma à medida que Israel e Judá começavam a formar uma identidade nacional. Assim, é possível que «as famílias honrassem os seus antepassados através de ritos verbais e da apresentação de oferendas, e centrassem a sua devoção religiosa no "deus do pai" ou no "deus da casa". Ao fazê-lo, ancoravam a sua identidade coletiva na sua linhagem e no seu local de origem» (van der Toorn, 1996, pág. 177).

Este era o ambiente, ou contexto, em que a antiga religião israelita e judaica começou a emergir. O que chamar ao povo antes da formação das identidades nacionais israelita e judaica, porém, é objeto de aceso debate. Por uma questão de simplicidade, referir-nos-emos a eles como proto-israelitas.

Partindo do princípio de que a Bíblia Hebraica reflete a religião proto-israelita, alguns estudiosos suspeitam que estes realizavam rituais em honra dos falecidos. Baseando-se num exemplo em 1 Samuel 20, van der Toorn explica:

O que aprendemos com a passagem é que havia uma refeição comunitária na qual se comia carne…; que «todo o clã»… tinha de estar presente; que era celebrada em Belém, a cidade natal de David, presumivelmente porque este era o local onde o clã possuía as suas terras herdadas, nas quais os antepassados estavam sepultados… Com base nestes dados, tem-se sugerido que o… sacrifício do clã era, de facto, «a ocasião em que os relatos genealógicos eram utilizados para invocar os nomes dos antepassados falecidos».

(pág. 214)

Por outras palavras, é provável que os proto-israelitas praticassem algum tipo de ritual de clã ou familiar. À medida que a antiga religião israelita e judaica se aproximava cada vez mais do monoteísmo entre os séculos X e VI a.C., a noção de uma religião familiar foi-se incorporando na antiga Judá. A ideia da casa de Israel ou da casa de Judá tem as suas raízes na noção de religião familiar. Com o aparecimento de uma rede mais ampla de alianças políticas sob os nomes de Israel e Judá, porém, a divindade familiar tornou-se a divindade do Estado.

Fora da Bíblia Hebraica, um dos melhores exemplos da antiga religião israelita e judaica provém de um sítio arqueológico chamado Kuntillet 'Ajrud, que data possivelmente já do século X a.C. Uma inscrição deste sítio diz: «a YHWH (Javé) de Samaria e à sua Áshera». Outra inscrição diz: «A YHWH (Javé) de Teman e à sua Áshera» (Na'aman, pág. 305). Ambas as inscrições demonstram que alguns antigos israelitas e judeus não eram monoteístas na forma como praticavam a religião; pelo contrário, eram henoteístas.

YHWH, que se pode ler como Javé, era a principal divindade tribal. É sobretudo conhecido através da Bíblia Hebraica. Asherata, também conhecida como Áshera, era uma divindade do panteão ugarítico, surgindo igualmente como uma figura comum na Bíblia Hebraica. Assim sendo, podemos afirmar com segurança que, no leque de práticas religiosas do antigo Israel e de Judá, tanto Áshera como Javé eram honrados em cultos. Contudo, a prioridade tendia a ser dada a Javé.

Uma inscrição proveniente de outro sítio arqueológico (Khirbet el-Qom, século VIII a.C.) diz o seguinte: «Abençoado seja Uriahu por YHWH, pois através de Áshera Ele o salvou do seu inimigo.» Vemos aqui uma forte evidência de que Áshera, uma divindade, intercedia por uma pessoa chamada Uriahu perante Javé. Na literatura ugarítica, encontramos uma conceção semelhante das divindades.

A deusa ugarítica Atirate era uma mediadora junto de El, a divindade principal do panteão de Ugarit. O paralelismo na forma como as populações concebiam as divindades (Javé está para Áshera assim como El está para Atirate) demonstra de que modo o antigo Israel e Judá partilhavam um enquadramento cultural e religioso com a cultura semítica ocidental mais vasta; contudo, eram também singulares no sentido em que adoravam uma divindade específica que representava de forma única o seu sistema (ou sistemas) tribal. Note-se, todavia, que esta interpretação permanece objeto de debate na discussão académica atual (cf. Smith 2002, pág. 125; Smith 2001, págs. 72-73).

Outros exemplos provêm da própria Bíblia Hebraica. No Salmo 82, por exemplo, Javé toma o seu lugar no conselho de El, a divindade suprema da mitologia semítica ocidental. Javé acusa as outras divindades do conselho de não ajudarem os pobres e necessitados. Por outras palavras, os restantes deuses falharam no cumprimento dos seus deveres enquanto divindades. Em consequência, El destitui-os do seu estatuto divino e ordena a Javé que governe sobre as nações. Nesta composição poética de Judá e de Israel, encontramos o exemplo de uma tradição em que outros deuses integram o panteão; todavia, Javé assume o papel central.

A narrativa da Bíblia Hebraica relata uma história semelhante. Por exemplo, em 1 Reis 16:33, o rei Acabe ergue um santuário dedicado a Áshera. Já 2 Reis 17:16 faz mesmo referência a populações que adoram Áshera e Baal. Do mesmo modo, o culto de Baal ocorre de forma consistente ao longo de toda a narrativa, o que sugere que este «desempenhou um papel relevante na crença da população israelita» durante a Idade do Ferro (DDD 1999, pág. 137).

Além disso, uma das primeiras traduções da Bíblia Hebraica para outra língua, no século III a.C., atesta o henoteísmo do antigo Israel. Na Septuaginta (LXX), uma tradução grega da Bíblia Hebraica, Deuteronómio 32:8 diz: «Quando o Altíssimo repartia as nações, ao dispersar os filhos de Adão, estabeleceu os limites das nações de acordo com o número dos filhos divinos» (Pietersma e Wright, 2007).

O Altíssimo é uma referência a El. Neste versículo, diz-se que El atribui nações e grupos étnicos aos seus filhos divinos, nomeadamente divindades. Neste versículo, Javé é atribuído a Israel, e outras divindades a outros povos. Assim, a própria Bíblia Hebraica reflete o henoteísmo do antigo Israel e da região em geral.

Além disso, como demonstram as inscrições anteriores, o culto a divindades que não a Javé parece ter sido uma parte habitual da vida das pessoas. Ao longo da Bíblia Hebraica, sugere-se que Javé sempre foi a divindade que as pessoas deveriam adorar. Com base nestas inscrições, nos Salmos, nos Livros dos Reis, no Deuteronómio e noutras evidências não mencionadas, sabemos, no entanto, que não é esse o caso; pelo contrário, o henoteísmo era provavelmente a norma para os antigos israelitas e judeus.

Um estudioso sugere que «o que quer que os autores bíblicos tenham tentado transmitir, pode não ter sido… a forma principal de crença ou prática religiosa» (Gilmour, pág. 100). Por outras palavras, a Bíblia Hebraica não representa com precisão a forma como as pessoas realmente praticavam a religião no mundo antigo. Gilmour defende isto porque a própria Bíblia Hebraica foi provavelmente editada e compilada entre os séculos VII e III a.C. Assim, embora a Bíblia Hebraica preserve tradições que remontam ao século XI a.C., as posições teológicas e culturais entre os séculos VII e III a.C. foram provavelmente projetadas no passado, e entre elas encontrava-se o monoteísmo.

Tendo apresentado uma ideia básica do que e como alguns antigos israelitas e judeus poderiam ter pensado sobre as divindades, podemos agora analisar como os antigos judeus e israelitas praticavam a religião no seu ambiente material. Por outras palavras, que tipo de ações concretas realizavam para adorar a sua divindade principal, Javé?

De acordo com a tradição do livro de Levítico, existiam cinco tipos principais de sacrifício:

Dentro de cada tipo de sacrifício, existiam três níveis de objetos materiais que podiam ser oferecidos. A razão pela qual existiam três níveis era permitir que os pobres da sociedade pudessem oferecer um sacrifício. Por exemplo, uma pessoa que trouxesse um holocausto podia oferecer um touro, uma ovelha ou uma cabra, ou ainda uma rola ou um pombo. Por outras palavras, podia oferecer uma dádiva dispendiosa, de preço intermédio ou de baixo custo.

Os outros tipos de sacrifícios ofereciam a mesma oportunidade aos pobres. Alguns textos rituais de uma cidade síria chamada Emar incluem os mesmos níveis de sacrifício, nomeadamente níveis que permitiam aos pobres fazer oferendas.

Um dos rituais anuais mais importantes terá sido o Dia da Expiação (Yom Kippur). O propósito do Dia da Expiação era purificar o santuário, dado que se considerava que o pecado poluía o espaço sagrado. Sem este ritual, Javé poderia, potencialmente, abandonar o santuário. E, sem Javé no santuário, deixava de existir uma divindade que intercedesse pela população judaíta. Enquanto membro da assembleia de El, o deus supremo na mitologia ugarítica (cf. Sal. 29, 82), Javé foi «atribuído» a Israel em algumas tradições bíblicas.

Para resolver este problema potencial, um sumo sacerdote realizava o ritual sacrificial, oferecendo-se em expiação pelos pecados do povo e aspergindo sangue sobre o altar. Em seguida, colocava a mão sobre a cabeça de um bode, transferia as impurezas para o bode e fazia uma última oferta queimada para expiar o povo (Levítico 16). Consequentemente, o povo era expiado. Esta expiação nacional servia também para fortalecer os laços políticos e a unidade.

O Dia da Expiação é muito semelhante a um ritual descrito nos textos ugaríticos (KTU 1.40), que datam de cerca do século XIII a.C. No entanto, difere num aspeto fundamental. Enquanto o ritual ugarítico é realizado em vários templos, o Dia da Expiação é, segundo o Levítico, realizado apenas num único templo, num único santuário. Assim, a antiga religião israelita e judaica partilha uma estrutura ritual semelhante; no entanto, o ritual também se distingue de outros rituais semíticos ocidentais no que diz respeito à centralidade em torno de um único santuário.

É claro que também são atestados outros rituais ao longo da Bíblia Hebraica, tais como a Páscoa (Pesach), as festas da Lua Nova e outras festas para celebrar as mudanças sazonais. Estes rituais envolviam provavelmente sacrifícios a Javé, tal como a tradição do Dia da Expiação.

No entanto, o ritual não era a única forma de devoção religiosa. Embora muitas vezes considerada um tabu, a adivinhação era uma parte importante da antiga religião israelita e judaica. Por exemplo, 1 Samuel 28 narra a história do rei Saul a visitar uma necromante (aquela que invoca espíritos) em En-Dor.

O rei Saul precisa de falar com o espírito do profeta Samuel. Nesta passagem, porém, a bruxa não é condenada por praticar necromancia. Assim, este texto demonstra que a adivinhação ocorria de facto nas práticas e rituais dos antigos israelitas e judeus. Da mesma forma, não era necessariamente mal vista.

Ao mesmo tempo, algumas tradições proíbem explicitamente a adivinhação. Em Deuteronómio 18:10-11 (Villapadierna, Carlos de (†) et al.. Bíblia Sagrada. 3.ª Ed. Lx: Dif Bíblica (MC), 1968, pág. 311), a oposição à adivinhação é explícita:

Não haja ninguém no meio de ti que faça passar pelo fogo o seu filho ou a sua filha; ou se dê à prática de encantamentos, ou se entregue a augúrios, à advinhação ou à mágia, ao feiticismo, ao espiritismo, aos sortilégios ou à evocação dos mortos.

Não haveria, porém, razão para uma lei como esta se a adivinhação não fosse praticada. Por conseguinte, a antiga religião israelita e judaica inclui a adivinhação em algumas tradições; no entanto, outras tradições, como Deuteronómio 18:10-11, opõem-se à prática da adivinhação.

No mundo antigo, o comportamento ético desempenhava um papel importante na religião. Os primeiros cinco livros da Bíblia Hebraica, por exemplo, enfatizam a importância do comportamento ético. O comportamento ético, porém, não é uma categoria distinta da religião no mundo antigo; pelo contrário, o comportamento ético influencia se a divindade, nomeadamente Javé, reside ou não no santuário ou no templo.

Consequentemente, entendia-se que o comportamento ético estava correlacionado com o facto de Javé continuar ou não a proteger os antigos judeus e israelitas doutros povos. Este tipo de correlação é evidente ao longo de toda a Bíblia Hebraica.

Por exemplo, um grupo no Monte Samaria é referido como «aqueles que oprimem os pobres e esmagam os necessitados» (Amós 4:1). Em resposta, Javé afirma que, apesar de lhes ter retirado o alimento, não ter enviado chuva e ter causado fome, o povo não se arrependeu. Por outras palavras, não alteraram o seu comportamento.

Isto não indica que Javé se preocupasse apenas com a ética e não se importasse com o seu culto; pelo contrário, indica que a ética influenciava se Javé iria ou não prover o sustento ao povo. Outro exemplo encontra-se em 1 Samuel 4. Nesta narrativa, a glória de Javé, ou seja, a representação da sua presença física, abandona o templo como consequência da corrupção ética dos filhos de Eli.

Por fim, Levítico 18-22 apresenta uma série de normas morais e éticas. A consequência de não seguir essas normas é ser «excluído do povo». É importante notar, porém, que esta consequência não é o castigo por mau comportamento; pelo contrário, é necessária para manter a santidade e a pureza dentro da comunidade e do templo. Pois, se a casa de Javév se tornasse demasiado contaminada, Ele teria de a abandonar.

Assim, o comportamento ético do povo da Judeia era um aspeto importante da religião, pois garantia a presença duradoura da divindade no templo. Consequentemente, a divindade podia conceder bênçãos, vida e sustento a partir do templo.

Quem está familiarizado com a Bíblia Hebraica/Antigo Testamento pode ter reparado que não houve qualquer discussão sobre a importância religiosa de aspetos como a Lei, Moisés e a dinastia davídica. A razão pela qual esses aspetos religiosos não foram incluídos deve-se ao facto de refletirem ideias religiosas desenvolvidas entre os séculos VII e IV a.C. Embora a linhagem de Judá e figuras como David existissem, não eram necessariamente centrais para a prática religiosa dos antigos israelitas e judeus.

Pois «a apresentação do passado de Israel na narrativa bíblica, desde o Génesis até aos 2 Reis, é uma construção ideológica de intelectuais» posterior ao século VII a.C., «que, no entanto, transmitiram algumas memórias datadas dos séculos X a VI a.C.» (Knauf e Guillaume, pág. 53). Assim, até certo ponto, a Bíblia Hebraica reflete bem o passado da antiga Judá e de Israel; no entanto, enquanto compilação de tradições judaicas, por vezes deturpa ou ignora por completo o que aconteceu no passado.

Além disso, os leitores atentos poderão notar que não houve qualquer discussão sobre o judaísmo. De um modo geral, o consenso académico é que a religião judaica era distinta da antiga religião israelita e judaica. Os elementos que definem o judaísmo, porém, estão fora do âmbito deste artigo.

Por fim, é importante estar ciente do estado atual dos estudos académicos relativos à história dos antigos israelitas. Como área de estudo, é uma das mais desafiantes, uma vez que os estudiosos dispõem de uma quantidade limitada de fontes primárias com as quais podem trabalhar. Da mesma forma, a história dos antigos israelitas, particularmente a história religiosa, é difícil de abordar, pois é necessário analisar minuciosamente a Bíblia Hebraica para determinar o que pode refletir o passado com maior precisão.

Assim, poderá haver outros que apresentem explicações e descrições muito diferentes sobre a forma como os antigos israelitas e judeus praticavam a religião. Esta é uma consequência natural da escassez de dados e serve para ilustrar o quanto ainda é necessário investigar a história dos antigos israelitas, para que possamos compreender como este antigo povo entendia o seu papel no mundo.