A Praia de Sword foi a praia mais a leste dos desembarques aliados na Normandia, no Dia D, a 6 de junho de 1944. À 3.ª Divisão de Infantaria Britânica foi atribuída a tarefa de tomar a praia, enquanto os paraquedistas e as unidades da Marinha Real e dos comandos franceses asseguravam as saídas da praia e o flanco oriental da invasão aliada.
O assalto anfíbio às praias da Normandia constituiu a primeira fase da Operação Overlord, que visava libertar a Europa Ocidental da ocupação da Alemanha nazi. O comandante supremo da força de invasão aliada era o general Dwight D. Eisenhower (1890-1969), que tinha estado à frente das operações aliadas no Mediterrâneo. O comandante-chefe das forças terrestres da Normandia, num total de 39 divisões, era o experiente general Bernard Montgomery (1887-1976). O comando da componente aérea estava a cargo do marechal-chefe do ar Trafford Leigh Mallory (1892-1944), enquanto a componente naval era comandada pelo almirante Bertram Ramsay (1883-1945).
A Alemanha nazi há muito que se preparava para uma invasão aliada, mas o alto comando alemão não tinha a certeza de onde, exatamente, tal invasão teria lugar. As estratégias de diversão dos Aliados aumentaram a incerteza, mas os locais mais prováveis continuavam a ser o Pas-de-Calais (ou Passo de Calais), o ponto mais próximo da costa britânica, ou a Normandia, com as suas amplas praias planas. O líder nazi Adolf Hitler (1889-1945) tentou fortificar toda a costa, desde Espanha até aos Países Baixos, com uma série de bunkers, casamatas, baterias de artilharia e tropas, mas esta «Muralha do Atlântico», como ele a chamava, estava longe de estar concluída no verão de 1944. Além disso, a muralha era frágil, uma vez que as defesas não tinham verdadeira profundidade.
O marechal de campo Gerd von Rundstedt (1875-1953), comandante-chefe do exército alemão no Ocidente, acreditava que seria impossível impedir uma invasão na costa e que, por isso, seria melhor manter a maior parte das forças defensivas como reserva móvel para contra-atacar as cabeças de praia inimigas. O marechal de campo Erwin Rommel (1891-1944), comandante do Grupo de Exércitos B, discordou e considerou essencial travar qualquer invasão nas próprias praias. Além disso, Rommel acreditava que a superioridade aérea dos Aliados significava que os movimentos das reservas seriam gravemente prejudicados. Hitler concordou com Rommel e, assim, as forças defensivas foram distribuídas ao longo dos pontos onde as fortificações eram mais vulneráveis. Rommel reforçou as defesas estáticas e acrescentou estruturas antitanque de aço a todas as praias de maior dimensão. No final, foi atribuída a Rundstedt uma reserva móvel, mas o compromisso enfraqueceu ambos os planos de defesa. A resposta alemã também não seria favorecida pela sua estrutura de comando confusa, o que significava que Rundstedt não podia recorrer a nenhum blindado (mas Rommel, que se reportava diretamente a Hitler, podia), e nenhum dos comandantes tinha qualquer controlo sobre as escassas forças navais e aéreas disponíveis ou sobre as baterias costeiras controladas separadamente. No entanto, as defesas foram reforçadas em torno das zonas mais vulneráveis da Normandia, atingindo o número impressionante de 31 divisões de infantaria, mais 10 divisões blindadas e 7 divisões de infantaria de reserva. O exército alemão dispunha de outras 13 divisões noutras regiões de França. Uma divisão alemã padrão tinha um efetivo total de 15 000 homens.
Os preparativos para a Operação Overlord decorreram ao longo dos meses de abril e maio de 1944, altura em que a Força Aérea Real (RAF - Royal Air Force) e a Força Aérea dos Estados Unidos (USAAF - United States Air Force) bombardearam incansavelmente os sistemas de comunicações e transportes em França, bem como as defesas costeiras, os aeródromos, os alvos industriais e as instalações militares. No total, foram realizadas mais de 200 000 missões para enfraquecer, tanto quanto possível, as defesas nazis, a fim de preparar o terreno para as tropas de infantaria prestes a participar no maior deslocamento de tropas da história. A Resistência Francesa (la Résistance française) também desempenhou o seu papel na preparação do terreno, destruindo linhas ferroviárias e sistemas de comunicação, o que garantiria que as forças armadas alemãs não pudessem responder eficazmente à invasão.
A frota aliada, composta por 7 000 embarcações de todos os tipos, partiu de portos da costa sul de Inglaterra, tais como Falmouth, Plymouth, Poole, Portsmouth, Newhaven e Harwich. Numa operação com o nome de código «Neptune», os navios reuniram-se ao largo de Portsmouth numa zona denominada «Piccadilly Circus», em referência ao movimentado cruzamento rodoviário londrino, e seguiram depois para a Normandia e para as zonas de assalto. Ao mesmo tempo, planadores e aviões voaram para a península de Cherbourg, a oeste, e para Ouistreham, na extremidade oriental da zona de desembarque planeada. Os paraquedistas da 82.ª e da 101.ª Divisão Aerotransportada dos EUA (US Airborne Division) atacaram a oeste para tentar isolar Cherbourg. Na extremidade oriental da operação, os paraquedistas da 6.ª Divisão Aerotransportada britânica (British Airborne Division) tinham como objetivo assegurar a ponte Pegasus sobre o Canal de Caen. Outras tarefas das unidades de paraquedistas e planadores consistiam em destruir as pontes para impedir o avanço do inimigo, manter outras pontes necessárias para o progresso da invasão, destruir as posições de artilharia, assegurar as saídas das praias e proteger os flancos da invasão.
O ataque anfíbio estava marcado para o amanhecer de 5 de junho, sendo a luz do dia um requisito necessário para o apoio aéreo e naval. O mau tempo levou a um adiamento de 24 horas. Pouco depois da meia-noite, as primeiras vagas de 23 000 paraquedistas britânicos e americanos aterraram em França. A partir das 3h00, iniciou-se o bombardeamento aéreo e naval da costa da Normandia, que cessou apenas 15 minutos antes de as primeiras tropas de infantaria aterrarem nas praias, às 6h30. A área foi dividida em cinco praias, cada uma com o seu próprio nome de código. Enquanto as tropas norte-americanas atacavam a Praia de Utah e a Praia de Omaha a ocidente, as tropas canadianas desembarcavam na Praia de Juno e as tropas britânicas lançavam um assalto na Praia de Gold e, na extremidade oriental da frente, na Praia de Sword, situada entre St-Aubin-sur-Mer e o rio Orne. A Praia de Sword, com 12,8 km (8 milhas) de extensão, foi dividida em quatro setores (de oeste para leste): Oboe, Peter, Queen e Roger.
Os paraquedistas da 6.ª Divisão Aerotransportada britânica tinham como missão assegurar o flanco oriental da zona de invasão, destruir as pontes vitais sobre o rio Dives para impedir os movimentos das tropas alemãs, capturar pontes intactas sobre o Canal do Orne e o rio Orne e neutralizar os canhões pesados da bateria de Merville no estuário do Orne. Os quatro canhões de Merville, que estavam bem protegidos contra bombardeamentos aéreos — cada um com a sua própria casamata de betão —, podiam disparar contra a praia e a frota aliada ao largo da costa. Os defensores tinham deliberadamente inundado a área para impedir um ataque, e os próprios canhões estavam rodeados por um formidável conjunto de minas, 20 ninhos de metralhadoras, um sistema de trincheiras e rolos de arame farpado. Os bombardeiros Lancaster da Força Aérea Real atacaram a área pouco antes de os paraquedistas serem lançados, mas não conseguiram destruir a bateria de Merville.
Os paraquedistas depararam-se com problemas imediatos. O intenso fogo antiaéreo obrigou os seus aviões a efetuar manobras evasivas, e os homens foram lançados sobre uma área muito mais vasta do que o planeado. Os batedores também sofreram avarias no equipamento. Muitos homens, sobrecarregados pelo equipamento, afogaram-se no pântano alagado e perdeu-se muito equipamento essencial, como morteiros e detetores de minas. Apenas 160 homens, de um total de 600, conseguiram chegar à zona de encontro da operação, mas a missão teve de prosseguir na mesma. Os canhões foram atacados, capturados e destruídos, mas ao custo de 75 baixas num ataque feroz que durou 20 minutos. Afinal, as armas eram muito menores do que o previsto e, de qualquer forma, não poderiam ter disparado contra a operação «Sword». Assim são os caprichos da guerra. Outros batalhões destruíram as pontes conforme planeado, enquanto os planadores traziam mais homens a cada hora. As tropas aerotransportadas britânicas superaram obstáculos significativos e conquistaram os seus objetivos dentro do prazo previsto. Restava agora a estas tropas levemente armadas manter o controlo das pontes até que os comandos que desembarcavam na praia pudessem chegar e substituí-las.
Navios da Marinha, incluindo os navios de guerra HMS Ramillies e Warspite, bombardearam a costa antes de as embarcações de desembarque que transportavam os tanques entrarem por volta das 7h30. A frota de invasão encontrava-se ao alcance dos poderosos canhões de 155 mm (6 pol.) de Le Havre. Os navios de guerra aliados possuíam os seus próprios canhões de grande calibre, que foram utilizados para bombardear as defesas e os canhões de Le Havre. Felizmente para os Aliados, os canhões de Le Havre concentraram-se em disparar contra o HMS Warspite em vez de contra a Praia de Sword, que, de qualquer forma, estava tão cheia de fumo que os artilheiros alemães não conseguiam determinar o alcance.
A maré estava invulgarmente alta naquela manhã, o que tornou a praia muito estreita, com menos de 13,7 m (15 jardas) em alguns pontos. Os defensores também tinham afundado obstáculos nas águas pouco profundas e espalhado obstáculos antitanque pela praia. Como observou o cabo John Barnes, comandante de tanque:
Tem-se a água a salpicar-nos na cara. Estamos a observar tudo o que se passa, a ver explosões, a ver as cortinas de fumo a serem lançadas… Na nossa mente, pensamos desesperadamente: «Tenho de chegar à praia, tenho de chegar à praia». Sabes que, se não chegares lá, vais afundar-te na água… Depois pensas: «O que é aquela coisa preta ali?», e olhas com muita atenção porque o tempo está mau e perguntas-te se será um obstáculo com uma mina.»
(Bailey, págs. 195-6)
Conseguiram chegar à praia, dirigir-se para os pontos de saída previamente designados e atacar as posições de artilharia 34 dos primeiros 40 tanques Sherman DD. Os Tanques Sherman e Churchill, com tripulações bem treinadas, atacaram as casamatas, enquanto os tanques «Crab» com martelos rotativos removiam as minas para criar corredores seguros na praia. Três filas de obstáculos minados ao longo de toda a praia destruíram muitos dos tanques antes que o grande número de veículos conseguisse abrir caminho. Mergulhadores da Marinha Real (Royal Marine) trabalharam nas águas pouco profundas para remover os obstáculos subaquáticos, que podiam (e, por vezes, de facto, o faziam) rasgar o fundo de uma embarcação de desembarque e afundá-la em segundos. Veículos especiais lançaram troncos para preencher as valas antitanque e as escavadoras nivelaram o arame farpado.
Os LSIs (Landing Ship, Infantry - Navio de Desembarque de Infantaria), de calado raso, entraram a seguir (em muitos casos, ultrapassando mesmo os tanques na água) e descarregaram na praia as tropas da 3.ª Divisão de Infantaria Britânica, do 1.º Corpo Britânico (2.º Exército Britânico). O seu comandante era o Major-General Tom Rennie. Os homens tiveram de sobreviver às águas agitadas, às minas e ao fogo inimigo proveniente de metralhadoras e morteiros. Foram lançadas bombas de fumo para obscurecer a praia, e os homens avançaram na água durante as últimas 275 metros (300 jardas) para chegar à costa. Os tanques e veículos blindados destruídos tornaram-se valiosos pontos de apoio para as unidades de infantaria que subiam em massa pela praia, mas também impediram o desembarque de outros veículos. O sargento Arthur Thompson recorda o seu desembarque:
Assim que a embarcação tocava na praia, a parte da frente descia e o grupo do centro tinha de sair a correr imediatamente, caso contrário os outros não conseguiam sair. E aquele jovem Joe que estava connosco, ficou ali parado, petrificado, e por isso ninguém conseguia mexer-se. Toda a gente gritava: «Saiam da maldita estrada!»… Nessa altura, a praia já estava a ficar coberta de mortos e feridos; tínhamos de saltar por cima deles à medida que avançávamos.
(Bailey, págs. 200-1)
A 1.ª Brigada de Serviços Especiais de comandos, liderada pelo Brigadeiro Lord Lovat, desembarcou perto de Colleville com a missão de socorrer os paraquedistas que defendiam duas pontes vitais, incluindo a Ponte Pegasus em Bénouville, o que impedia a 21.ª Divisão Panzer (Panzer-Division - blindados) alemã de atravessar para a zona de desembarque e permitia aos Aliados uma rota para terrenos mais abertos. A presença da 21.ª Divisão Panzer tão perto de Caen e os atrasos no desembarque significaram que a cidade não pudesse ser capturada no Dia D, tal como tinha sido planeado de forma bastante otimista. Seriam necessários dois meses de combates intensos para tomar Caen.
De volta à praia, os casamatas alemães estavam a revelar-se um osso duro de roer, tal como descrito pelo comando, o cabo Jim Spearman:
A dominar todo o local estavam estas casamatas enormes. Não importava para onde fosses, não conseguias sair do seu alcance; cobriam muito bem a praia. As fortificações eram excelentes. Se pensares numa casamata, podes aproximar-te dela, ir até uma fenda e atirar uma granada para dentro, mas estas malditas defesas que eles tinham na praia tinham cerca de uma dúzia de fendas. Eram coisas impressionantes.
(Bailey, pág. 212)
À medida que a praia ficava cada vez mais sob controlo dos Aliados, mais tropas chegavam e atacavam locais onde as forças alemãs se tinham entrincheirado, tais como as armas pesadas no casino de Riva Bella, a oeste de Ouistreham, onde ainda se travavam combates intensos. O fogo dos atiradores furtivos alemães era uma ameaça constante, tal como o fogo de morteiros e de artilharia proveniente de baterias situadas mais no interior. Os defensores mantiveram o controlo de Lion-sur-Mer, atrasando os atacantes e impedindo uma ligação imediata com as forças que desembarcavam na Praia de Juno.
As tropas que desembarcaram na Praia de Sword estavam entre as mais cosmopolitas dos desembarques na Normandia e incluíam franceses, holandeses, polacos, noruegueses e belgas, bem como vários refugiados judeus alemães. Todas estas tropas eram comandadas pelo comandante da praia, que exortava os homens a avançarem e a não se demorarem na praia. Os soldados foram recebidos à medida que passavam pelo presidente da Câmara de Colleville, que usava um capacete de bombeiro de latão, e por uma jovem francesa com uma braçadeira da Cruz Vermelha, que prestava cuidados aos feridos. Outras cenas pitorescas no meio do caos da guerra incluíam tropas britânicas a parar para preparar chá, soldados franceses a fazer uma pausa para colher morangos e um agricultor francês ocupado a colar cartazes nas portas com as inscrições «Vive les Tommies!» (Viva os Soldados Britânicos) e «Vive la France!» (Viva a França). Por volta das 11h00, as tropas aliadas avançavam para além da cabeça de praia, auxiliadas pela indecisão do comando alemão em mobilizar divisões blindadas como a 12.ª Divisão SS Panzer Hitlerjugend (Juventude Hitleriana) e pela eficácia do apoio aéreo aliado quando os tanques alemães avançaram finalmente. Às 13h00, os comandos tinham-se reunido com as tropas aerotransportadas na Ponte Pegasus. Gradualmente, as forças alemãs foram a recuperar do choque inicial e, a meio da tarde, já estavam a lançar contra-ataques, mas era demasiado pouco e demasiado tarde, uma vez que as tropas aliadas continuavam a chegar em massa à praia. A cabeça de praia de Sword tinha sido definitivamente estabelecida.
No Dia D, 28 845 soldados desembarcaram na Praia de Sword, com 630 baixas (embora não existam números oficiais relativos apenas ao Dia D e as estimativas possam variar). No dia seguinte, as tropas na Praia de Sword uniram-se às forças canadianas na Praia de Juno.
No final do Dia D, tinham desembarcado 135 000 homens e registaram-se relativamente poucas baixas – cerca de 5 000 homens. Os defensores acabaram por organizar-se para um contra-ataque, mobilizando as reservas e trazendo tropas de outras partes de França. Foi então que a resistência francesa e os bombardeamentos aéreos dos Aliados se tornaram cruciais, dificultando seriamente os esforços dos comandantes alemães para reforçar as zonas costeiras da Normandia. A maioria dos generais alemães pretendia retirar-se, reagrupar-se e, em seguida, contra-atacar em força, mas, a 11 de junho, Hitler ordenou que não houvesse retirada. A Operação Neptune terminou oficialmente a 30 de junho. Desde o Dia D, tinham sido desembarcados cerca de 850 000 homens, 148 800 veículos e 570 000 toneladas de provisões e equipamento. A fase seguinte da Operação Overlord consistia em expulsar o exército alemão da Normandia, mas tal revelou-se mais difícil do que o previsto, com os defensores a lutarem com determinação e a serem auxiliados pela paisagem fragmentada de campos agrícolas fechados por sebes, o bocage. Houve alguns reveses graves para os Aliados, tais como a defesa obstinada de Caen e os combates muito intensos na zona de Avranches. Só em agosto é que o General Patton e o Terceiro Exército dos EUA avançaram para sul na ala ocidental da ofensiva. Os portos bretões de Saint-Malo, Brest e Lorient foram tomados, e os Aliados avançaram para sul até ao rio Loire, de Saint-Nazaire a Orléans. A 15 de agosto, teve lugar um grande desembarque na costa sul de França, os Desembarques da Riviera Francesa. A 25 de agosto, Paris foi libertada. Os exércitos aliados do norte e do sul uniram-se em setembro e fizeram recuar o exército alemão em direção à Alemanha, à medida que a Segunda Guerra Mundial entrava na sua fase final.