A Invasão do Palácio das Tulherias (Palais des Tuileries), também conhecida como Insurreição de 10 de Agosto de 1792, foi um momento determinante nos rumos da Revolução Francesa (1789-1799), quando os revolucionários de Paris invadiram a residência de Luís XVI da França (reinou 1774-1792) e massacraram os Guardas Suíços do palácio. O evento aboliu a monarquia, marcando uma nova fase da Revolução.
Antes da insurreição, uma inquietante reconciliação havia sido tentada entre Luís XVI e o governo Revolucionário. Nas primeiras semanas das Guerras Revolucionárias Francesas (1792-1802) a França saiu derrotada e muitos culparam o Rei. Seus vetos sobre os decretos populares da Assembleia Legislativa desembocaram na Demonstração de 20 de Junho de 1792, quando os revolucionários tomaram o Palácio das Tulherias pela primeira vez, sem resolver os problemas existentes, conduzindo a uma segunda e sangrenta invasão em 10 de agosto, resultando na suspensão da monarquia e lançando a França na direção do republicanismo.
Além de abolir a monarquia, a Invasão das Tulherias é significativa pois colocou mais poder nas mãos dos sans-culottes, os revolucionários da classe trabalhadora. As desavenças entre os líderes burgueses da Revolução e os sans-culottes conduziria aos mais sombrios dias da Revolução.
O início do fim do desafortunado reinado de Luís XVI e o seu infeliz destino devem ser rememorados ao dia 20 de abril de 1792, quando a França declarou guerra à Áustria, detonando a Guerra da Primeira Coalizão (1792-1797). Conforme a propaganda da facção linha-dura dos Girondinos na Assembleia Legislativa, deveria ser uma guerra fácil, com os cidadãos‑soldados franceses avançando pela Bélgica e pela Alemanha para levar os frutos da Revolução Francesa na ponta da baioneta.
Na realidade, o exército revolucionário francês não se encontrava preparado para a tarefa, pois era mal suprido, indisciplinado e dividido. Os franceses se desmoronaram frente aos exércitos profissionais da Áustria logo após a declaração de guerra. Ao perderem entre um terço e metade de seus experimentados oficiais devido à emigração antirrevolucionária, os franceses sofreram mais ainda quando regimentos inteiros começaram a deserdar para o lado austríaco.
Em Paris, a Assembleia Legislativa tentou reduzir a infeliz sorte da França com uma série de decretos voltados a fortificar a cidade frente aos inimigos da nação. O primeiro foi um decreto determinando a deportação de todos os sacerdotes refratários, que se recusaram a jurar lealdade ao Estado como exigido pela Constituição Civil do Clero. O segundo foi dispensar 6.000 homens da Guarda Constitucional do Rei, que havia sido formado no mês de setembro anterior para proteção real. O terceiro foi reunir 20.000 fedérés, milicianos vindos das províncias, para ostensivamente proteger Paris do ataque austríaco. Apesar de consentir com a dispensa de sua Guarda Constitucional, o Rei usou seu poder de veto para com os outros dois decretos. Quando seus ministros, dominados pelos Girondinos, o repreenderam por isso, ele “limpou a casa” e os substituiu pelos leais Feuillants (monarquistas constitucionais).
A resistência do Rei conseguiu ganhar a ira da Assembleia, dos Girondinos e do povo, os quais acreditavam que suas ações eram contrárias à defesa da França. De fato, rumores provocados por jornalistas inflamados como Jean-Paul Marat, faziam crer que a realeza seria o centro de um “Comitê Austríaco”, o que significava sabotagem aos esforços de guerra e entregar Paris aos austríacos. Embora não inteiramente precisa, essa teoria era próxima do que muitos achavam ser verdade, pois a Rainha da França, Maria Antonieta (1755-1793), encontrava-se de fato enviando segredos militares aos seus contatos na Áustria, apostando que os austríacos poderiam restaurar seu marido aos antigos plenos poderes caso a França fosse derrotada.
Estes fatores culminaram na Demonstração de 20 de Junho de 1792, quando milhares operários de Paris, chamados por eles mesmos sans-culottes (literalmente, “sem calças de seda”/sem culotes), invadiram Palácio das Tulherias armados com lanças e rastelos. Encontraram o Rei acompanhado por alguns guardas e funcionários e começaram a ameaçar e desdenhar dele. Tudo teria terminado em violência se o Rei fizesse algum gesto de resistência. Ao contrário, acolheu-os entusiasticamente, conversou e brindou com eles ao povo e à nação e até mesmo levou à cabeça um boné da liberdade vermelho que lhe fora presenteado.
Apesar de tudo isso, Luís XVI de forma atípica manteve sua posição, recusando-se a reverter suas decisões anteriores. Após plantar uma árvore da liberdade nos terrenos do palácio, a multidão se dispersou, deixando Luís e Maria Antonieta suspirar aliviados. No entanto, os eventos de 20 de junho nada mudoram, exceto em desconsagrar, posteriormente, a majestática reverência, que era sinônimo e envolvia a monarquia francesa.
À medida que as tensões aumentavam em Paris, a situação na frente de guerra era mais desanimadora. Em junho, a Prússia entrou na guerra do lado da Áustria e as duas nações começaram a reunir um exército sob o comando do Duque de Brunswick para invadir a França e derrubar o regime revolucionário. A força austro-prussiana seria reforçada por um exército de antirrevolucionários franceses emigrados, fundamentalmente aristocratas e oficiais militares que fugiram da Revolução. Em 5 de julho, a Assembleia Legislativa da França respondeu a essa ameaça proclamando um estado de emergência, anunciando que “la patrie est en danger” (“a pátria está em perigo”).
Citando essa emergência, a Assembleia contornou os vetos do Rei e ordenou que 20.000 milicianos provinciais, os federés, viessem a Paris. Nas semanas seguintes, homens armados começaram a chegar em massa à capital, vindos de todo o país. Em 30 de julho, entrou na capital um grupo de 500 homens de Marselha, cantando um novo hino patriótico, que mais tarde receberia o nome La Marseillaise. Nesse meio tempo, a Assembleia reuniu novos batalhões da Guarda Nacional, preenchendo suas fileiras com 15.000 voluntários parisienses. A presença de todos esses homens armados, arruaceiros, pouco fez para acalmar os nervos, especialmente quando federés e membros da Guarda Nacional começaram a brigar abertamente nas ruas.
Na esperança de manter apoio para a guerra, a Assembleia também ordenou que o governo de cada uma das 48 seções de Paris se mantivesse em sessão permanente e que toda instituição oficial realizasse seus encontros em público. Rapidamente, as discussões nessas seções voltaram-se para a implantação de uma república, pois a natureza pública dessas reuniões tinha por objetivo fazer com que os dissidentes fossem expulsos pela multidão de observadores sans-culottes. Os fedérés, que não apenas frequentavam estas reuniões, também se hospedavam com patriotas militantes ou permaneciam nos terrenos perto do republicano Clube dos Cordeliers, onde se vivia uma atmosfera de fervor revolucionário. Tais ideias encontravam terreno fértil em muitos deles, particularmente os originários de regiões onde os ganhos revolucionários eram mais questionados.
As discussões nessas assembleias eram alimentadas pela retórica provocativa de jornalistas como Marat, que defendia os pobres em seu jornal L’Ami du Peuple (O Amigo do Povo) e atacava a Revolução dos líderes burgueses, perguntando por que “somente os ricos deveriam colher os frutos da Revolução?” (Schama, 611). Pierre Vergniaud, um Girondino proeminente, proferiu um discurso no plenário da Assembleia Legislativa, acusando o Rei de trabalhar com o inimigo e clamando por sua abdicação. Em 31 de julho, Mauconseil, uma das seções de Paris, publicou um manifesto que reunia ambos os sentimentos e exigia que o povo retomasse a Revolução com as próprias mãos:
A obrigação mais sagrada...é esquecer a lei para salvar a pátria. Por muito tempo, um desprezível tirano brincou com nossos destinos...sem perder tempo em ficarmos nos divertindo e não mais só calculando os erros dele, seus crimes e seus perjúrios, golpeemos este colosso do despotismo... unamo-nos e declaremos a queda desse cruel Rei, afirmemos em uma só voz que Luís XVI não mais é Rei da França (Schama, 612).
Foi este um passo à frente, pois a maior parte da cidade e seus líderes clamavam pela destituição do Rei. A situação de apreensão e raiva somente ficariam piores quando chegaram, a Paris, notícias a respeito do Manifesto de Brunswick.
Em essência, o manifesto condenou as recentes ações da França, incluindo a declaração de uma “guerra injusta” da Áustria, bem como o tratamento de Luís XVI e sua família, que foram submetidos a “ultrages e brutalidades e que continuam diariamente.” Também anunciou as intenções do exército invasor em colocar um fim na anarquia que atormentava a França, restaurar os poderes de Luís XVI e, ao mesmo tempo, questionava a “parte sadia da nação francesa” para se erguer contra as “odiosas atitudes de seus opressores.” Qualquer francês que resistir deverá ser considerado rebelde e sujeito às estritas leis de guerra” (Manifesto de Brunswick).
Mas foi contra a própria cidade de Paris que o manifesto endereçou suas mais terríveis ameaças:
A cidade de Paris e todos os seus habitantes, sem distinção, deverão se submeter imediatamente e sem demora ao Rei... (os soberanos da Áustria e Prússia declaram, em palavra de honra como imperador e Rei, que se o Palácio das Tulherias for invadido pela força ou atacado, se a mínima atitude acontecer contra as pessoas de Suas Majestades o Rei, a Rainha e família real e se suas segurança e liberdade não forem imediatamente asseguradas, irão eles infligir uma jamais vista e memorável vingança, entregando a cidade de Paris à execução militar e à completa destruição, bem como os rebeldes acusados de tais ultrages receberão a punição que merecem... (citado a partir do Hannover Historical Project - Projeto Histórico Hannover).
O Manifesto de Brunswick, lançado em 25 de julho, pretendia garantir a segurança de Luís XVI e sua família, intimidando Paris à submissão. Evidente que ia ter o efeito oposto. Quando a notícia chegou a Paris em 1.º de agosto, uniu os cidadãos horrorizados e enfurecidos contra os invasores. Ameaçados pela destruição total da cidade e a execução dos rebeldes, só elevou a determinação dos parisienses em defender seus lares.
Nos dias que se seguiram à edição do manifesto, Paris presenciou uma agitada atividade. Sob a direção de poderoso clube político, os Jacobinos, comitês de coordenação foram implantados nas 48 seções, visando preparar os fedérés para ação. Os patrióticos Guardas Nacionais desertaram de suas posições e uniram-se às seções. Os sans-culottes foram também mobilizados por suas próprias lideranças incluindo Fournier, “o Americano”, e o cervejeiro Antoine Santerre. Evidentemente, uma maciça manifestação estava em mobilização, de maneira a atingir com um golpe a enfraquecida coroa e a dividida Assembleia Legislativa. Pela primeira vez desde a Tomada da Bastilha, seria, de fato, uma revolução construída a partir da base.
Em 3 de agosto, delegados das 47 seções de Paris compareceram perante a Assembleia Legislativa para exigir a destituição do Rei. O historiador Ian Davidson acentua que eles foram até à Assembleia primeiro, desejando conseguir legalmente a abdicação do Rei antes de recorrerem à insurreição. Quando Assembleia não respondeu satisfatoriamente ao pedido, duas das seções ameaçaram marchar sobre a Assembleia em 5 de agosto. O prefeito de Paris, Jerôme Pétion convenceu-os a aguardar 5 dias enquanto a Assembleia deliberava. Em 7 de agosto, o Prefeito Pétion fez uma visita ao seu amigo, o influente líder jacobino Maximilien Robespierre (1758-1794) para pedir que ele acalmasse a população. A resposta de Robespierre é desconhecida, porém logo se tornou evidente que nada impediria a queda das pedras do dominó.
A insurreição foi deflagrada por ninguém menos que Georges Danton (1759-1794), líder do extremista Club Cordeliers. Primeiramente, ele foi à sua cidade natal, Arcis, e entregou todo seu dinheiro para sua mãe de 70 anos, para o caso em que fosse morto. Em seguida, retornou a Paris e, na noite de 9 de agosto, convocou os representantes de todas as 48 seções de Paris. Juntos, invadiram o Hôtel de Ville, a Prefeitura da cidade, e assumiram o governo municipal. Em seguida, se declararam como uma Comuna Insurrecional e assumiram como o novo governo da cidade, composto por três delegados de cada seção, com Danton assumindo como Ministro da Justiça.
Na manhã do dia seguinte, o Marquês de Mandat, comandante da Guarda Nacional, ordenou o bloqueio de todas as pontes do Sena para isolar os rebeldes uns dos outros. Inicialmente o plano deu certo, mas em certo ponto da manhã, Mandat foi convocado ao Hôtel de Ville para explicar por que havia assumido posições defensivas. Ao chegar sozinho, Mandat foi cercado pelos deputados e denunciado a Danton, que o destituiu do comando. Em seguida, foi levado para fora do edifício e morto a tiros. As forças defensoras do Rei estavam agora sem comandante.
Mais tarde, no mesmo dia, um membro da Comuna Insurrecional chegou à Assembleia Legislativa para anunciar que o governo da cidade fora suspenso. Nesse meio tempo, teve início o toque do sino de emergência, reconhecido que foi como o sinal para a manifestação revolucionária. Multidões de manifestantes já se encontravam a caminho do Palácio das Tulherias, alguns do faubourg Saint-Antoine, alguns da margem esquerda do Sena, apoiados pelos fedérés e membros da antiga Guarda Nacional. Por volta das 9 horas da manhã chegaram aos portões do palácio as primeiras levas de insurrecionais.
Luís XVI havia acordado muito cedo para inspecionar as tropas reunidas no pátio de seu palácio. Em vestes militares completas, o Rei foi aclamado por intensos aplausos de seus Guardas Suíços, mas também por irritados gritos dos guardas nacionais reunidos, com cânticos de “Vetos nunca mais!” Cautelosamente, o Rei retirou-se para o interior do Palácio, quando foi informado por um oficial, Pierre Louis Roederer, da vinda dos insurretos. O Rei concordou com a sugestão de Roederer, de que ele e a família real se abrigassem no La Manège (Carrossel), local de reunião da Assembleia Legislativa. Mas, antes de deixar o Palácio, Luís escreveu uma nota determinando que os Guardas Suíços se rendessem ao invés de recorrerem à violência.
Alguns dos homens de Luís sentiram-se felizes em se renderem. Os membros da Guarda Nacional, que haviam se postados na defesa do Palácio, confraternizaram-se com os revoltosos, convidando-os para que entrassem nas áreas do Palácio. Porém, a Guarda Suíça não foi fácil em se render. Eram eles extremamente leais e em 1º de agosto um deles havia escrito para casa que “decidimos entregar nossas armas somente com nossas vidas” (Fraser, 374).
Dentro dessa situação, quando os revoltosos se aproximaram do próprio Palácio, deram de frente com os Suíços, em silêncio, imóveis, guardando a entrada do palácio. Os dois grupos ficaram frente a frente, sem ação; algum tempo depois, alguns dos revoltosos avançaram amigavelmente, acreditando que alguns dos guardas suíços haviam dado mostras de paz. Eles foram recebidos com uma saraivada de tiros vindos dos guardas. Como na Bastilha, os revoltosos acreditaram que haviam caído em uma armadilha e seguiu-se o caos.
Dentro dos limites do Palácio das Tulherias, seguiu-se, por horas, uma furiosa e sanguinolenta batalha. Fournier, “o Americano”, liderou a primeira onda do contra-ataque, com os fedérés de Marselha na linha de frente. Os atacantes eram, em número, superiores aos defensores, com 900 Guardas Suíços defendendo o Palácio, junto com 2.000 soldados da Guarda Nacional de duvidosa lealdade. Em contraste, os atacantes ultrapassavam 20.000 e, no entanto, os suíços mantiveram a luta, rechaçando sucessivas ondas de investidas das tropas da Comuna. Porém, a força dos números prevaleceu e os Suíços foram sobrepujados.
Quando os Suíços se viram acuados, começaram a recuar e a batalha virou uma chacina. Os Guardas Suíços, em correria foram perseguidos por furiosos fedérés e sans-culottes e feitos em pedaços, retalhados por lanças, facas e espadas. Defensores foram atirados das janelas e esquartejados dentro da capela, onde haviam procurado refúgio, pensando estar protegidos pelo santuário. Soldados ajoelhavam-se nas ruas e imploravam por suas vidas antes de serem mortos, seus corpos mutilados lança, dados aos pedaços aos cães, queimados em fogueiras ou simplesmente deixados a apodrecer nas sarjetas. A histeria atingiu tal ponto que os fedérés de Brest foram mortos por amigos rebeldes, pois usavam uniformes vermelhos semelhantes aos dos Suíços. Ao final do dia, aproximadamente 600 soldados estavam mortos, junto com algo como 200 rebeldes.
A Insurreição de 10 de agosto alterou profundamente o curso da Revolução. Enquanto anteriormente ela estava sob o comando de abastados advogados burgueses, 10 de agosto presenciou a ascensão da influência dos sans-culotte nos assuntos revolucionários. Um novo momento, no qual a revolução da burguesia, caracterizada por monarquia constitucional e legalidade, se encerrou, iniciou-se um segundo, a revolução populista.
Tão logo a poeira se assentou, a Comuna Insurrecional enviou delegados à Assembleia Legislativa, solicitando a destituição do Rei, criação de uma nova Assembleia Legislativa e uma nova Constituição. A Assembleia Legislativa hesitou em destituir completamente o Rei, mas se comprometeu a suspender seus poderes até que uma Convenção Nacional pudesse decidir o destino da monarquia.
Em 11 de agosto, Pierre Verginaud, um importante Girondino, anunciou à Assembleia que a família real deveria ser realocada no Palácio Luxembourg. A Comuna respondeu que isso seria inaceitável, o Rei, disse ela, deveria ir para o Templo, uma pequena fortaleza que seria mais fácil de controlar. Vergniaud concordou, sugerindo que o Rei poderia residir no Palácio do Templo. Mais uma vez a Comuna não aceitou e que a família real deveria ser confinada à Prisão do Templo. E assim foi feito, em 12 de agosto de 1792, o Rei e sua família foram entregues à Comuna Insurrecional, que os colocou sob vigilância na prisão do Templo. Luís XVI ali residiria pelo resto de seus dias. Embora a monarquia tenha sido somente suspensa, por mais um mês a França não seria declarada uma República, mas o destino da Monarquia francesa estava selado.