Georges Jacques Danton (1759-1794) um advogado francês, proeminente líder dentro da Revolução Francesa (1789-1799), assumiu importante papel na destituição da monarquia e subsequente implantação da Primeira República Francesa. Tempos mais tarde, se posicionou moderadamente, opondo-se ao Reinado do Terror, o que levou à sua execução em 5 de abril de 1794.

Nascido em Acris-sur-Aube, uma comuna no nordeste da França, em 26 de outubro de 1759, pertencente a uma família burguesa comum, recentemente saída do campesinato. Filho de um advogado, Jacques Danton e de sua segunda esposa, Marie-Madeleine Camus, possuía uma irmã mais velha de nome Anne-Marguerite. Seu pai morreu quando Danton tinha três anos e sua mãe contraiu novo casamento em 1770 com um comerciante de cereais. Durante sua infância, o seu rosto ficou com cicatrizes de varíola e devido a um acidente com animais da fazenda: porcos o atropelaram e um boi o escoiceou na face, deixando-o permanentemente desfigurado.

A partir de 1773, foi educado em um colégio religioso em Troyes e em 1780 foi para Paris onde encontrou trabalho como assistente judiciário. Em 1784, encontrava-se estudando direito em Reims, mantendo, ao mesmo tempo, o cargo de assistente judiciário, com viagens frequentes entre Paris e Reims. Frequentava sempre o Café du Parnasse, do lado oposto ao Palácio da Justiça em Paris e foi ali que encontrou e se apaixonou por Antoinette-Gabrielle Charpentier, filha do proprietário do Café, casando-se em 14 de junho de 1787. Neste mesmo ano, Danton acumulou suficiente dinheiro para comprar o cargo venal de advogado no Conselho do Rei, Conselho este com funções legislativas e judiciais e que oferecia a Danton um futuro brilhante.

Os Dantons passaram a morar em um apartamento de seis cômodos na Margem Esquerda em Paris, com três filhos, sendo dois maiores de idade. Ao que parece, Danton tinha uma vida moderadamente bem-sucedida, porém um tanto obscura. Mesmo nessa época, as nuvens da tempestade da Revolução estavam se agrupando, os pobres passando fome, as ordens sociais em rixas e uma montanha de dívidas públicas ameaçava sufocar toda a França sob seu peso. Em maio de 1789, o Rei Luiz XVI da França (reinou 1774-1792) não teve alternativa a não ser convocar os Estados-Gerais de 1789 para tentar solucionar essas questões, mas a reunião não foi bem-sucedida, pois os Estados se uniram em uma Assembleia Nacional Constituinte, desafiando a autoridade real com a promessa de redigir uma nova Constituição da França. As tentativas do Rei em restaurar a ordem pela força das armas levou à Tomada da Bastilha em 14 de julho pelo povo. A Revolução Francesa começara e a vida de Danton logo se envolveria com ela.

Nas palavras da historiadora francesa Mona Ozouf, Danton "foi uma criação da Revolução" que "emergiu inesperadamente do próprio grande evento" (Furet, 213). Em 13 de julho de 1789, entre os motins que conduziram à Queda da Bastilha, Danton embarcou nas páginas da História quando subiu em uma mesa e incitou seus compatriotas a agirem. Alto e atlético com uma voz estrondosa, era impossível ignorá-lo. Dois dias depois, entrou como voluntário na Guarda Nacional de seu distrito e rapidamente tornou-se enredado na política revolucionária local.

O distrito em que Danton vivia, em volta do antigo convento Cordeliers, foi um foco para atividade revolucionária radical. Danton morava próximo da esquina onde surgiram revolucionários, como Camille Desmoulins (1760-1794) e Jean Paul Marat (1743-1793). Os três se conheceram no Café Procope, onde os revolucionários do distrito Cordeliers se reuniam para beber e trocarem ideias a respeito para uma França melhor. O carisma e fervor revolucionário de Danton ajudaram-no a sobressair no meio desse grupo e foi eleito presidente do distrito Cordeliers no início de outubro. Tornou-se um porta-voz para o radicalismo popular, denunciando as políticas moderadas do prefeito de Paris, Jean Sylvain Bailly, e de Gilbert du Motier, Marquês de Lafayette (1757-1834). Ele passou a frequentar o Clube Jacobino, uma sociedade política onde os revolucionários punham-se a discutir suas a agendas e logo veio a se tornar um de seus principais membros, junto com Maximilien Robespierre (1758-1794) e Jacques-Pierre Brissot (1754-1793).

As habilidades oratórias de Danton renderam-lhe o apelido de "Mirabeau da sarjeta", após o eloquente líder revolucionário Honoré-Gabriel Riquetti, Conde de Mirabeau (1749-1791), que compartilhava muitas qualidades com Danton. Como Mirabeau, Danton possuía uma eletrificante e apaixonada palavra, adicionando-se somente o seu magnetismo. Como Mirabeau, Danton não era estranho ao vício e era conhecido por ser mulherengo e bebedor incorrigível. Como Mirabeau, Danton enfrentou acusações de corrupção e, ao contrário de Mirabeau, um nobre, Danton era totalmente um homem do povo identificava-se intimamente com a pobreza dos sans-culotte, a classe inferior da França Revolucionária.

Em abril de 1790, o distrito Cordeliers foi abolido devido à modificação na distribuição dos distritos e Danton acabou perdendo seu emprego. Para manter o instinto revolucionário da área, Danton e Desmoulins fundaram um novo clube político, que recebeu o nome do convento Cordeliers onde se reuniam. O Clube Cordeliers manteve as mensalidades de seus membros em valores baixos, algo como um centavo por mês, permitindo a qualquer pessoa participar; essa inclusividade colocou-o como um clube diferente dos demais, como os Jacobinos, os quais reuniam, em sua maioria, um público burguês. O Cordeliers se reunia toda manhã às nove horas, com a presença de Danton assumindo sua posição entre a aglomeração de trabalhadores. Ele foi eleito o primeiro presidente do clube em 27 de abril de 1790.

Em junho de 1791, Luiz XVI e sua família tentaram fugir da França na frustrada Fuga para Varennes. Isso perturbou a maioria de população, que acreditou que o Rei estava tentando instigar uma contrarrevolução. Em julho, o Clube Cordeliers liderou uma chamada para a deposição do Rei. Danton, Desmoulins e Brissot prepararam uma petição para que Luiz XVI abdicasse e para um referendo para decidir o futuro da monarquia. Quando os manifestantes se reuniram no Campo de Marte para assinar a petição em 17 de julho, foram atacados pelo fogo dos Guardas Nacionais comandados por Lafayette, resultando em 50 mortes. Após o Massacre do Campo de Marte, a Assembleia Nacional reprimiu os agitadores, forçando Danton a fugir para Londres por um mês para evitar ser preso. Interessante observar que seu nome não aparecia em nenhum lugar na petição que havia feito e nem mesmo estava presente no dia do massacre, o que levou seus inimigos a duvidarem de seus propósitos.

Em 1792, a França declarou guerra à Áustria, dando início às Guerras Revolucionárias Francesas (1792-1802). A guerra teve um início desfavorável à França, obrigada a recuar da fronteira permitindo ao exército comandado pela Prússia iniciar uma lenta marcha em direção a Paris. Danton, que inicialmente se posicionara em dúvida quanto declaração inicial de guerra, logo se tornou um vigoroso apoiador dos esforços de guerra, compreendendo que uma derrota poderia colocar um fim no comando do exército francês, acreditando Danton que poderia usar sua posição para fazer um jogo político. Quando Lafayette fugiu da França após falhar em conseguir apoio para um golpe contra os Jacobinos, Danton conseguiu apoio em suas suspeitas e sua popularidade somente cresceu.

Nesse meio tempo, muitos revolucionários suspeitaram que o Rei se encontrava ambivalente com relação às defesas da França, ou até mesmo auxiliando os inimigos da França. No final de julho, o exército lançou o Manifesto de Brunswick, que ameaçava destruir Paris caso algum dano fosse cometido contra a família real. Isto colocou a cidade em pânico e seções de Paris começaram a planejar uma insurreição contra o Rei traidor. Muita coisa foi planejada no interior do Clube Cordeliers e Danton assumiu a liderança na organização do motim. Como a data da insurreição se aproximava, Danton foi para sua cidade natal, Acris-sur-Aube e entregou todo seu dinheiro para sua mãe para o caso dele ser morto. De volta a Paris, ele e sua esposa Gabrielle, passaram a noite de 9 de agosto jantando com Desmoulins e sua esposa Lucile. Após o jantar, os dois homens tomaram de seus rifles e foram se reunir com os insurrecionistas, deixando as esposas em lágrimas.

Nas primeiras horas da manhã de 10 de agosto, Danton reuniu os homens de todas as 48 seções de Paris no Hôtel de Ville, sede do governo da cidade, e ele mesmo instalou a Comuna Insurrecionista com ele mesmo como Ministro da Justiça. Seu primeiro ato foi ordenar a prisão e execução do Marquês de Mandat, comandante da Guarda Nacional, que havia descoberto a insurreição e organizado defesas contra ela. Em seguida, os insurrecionistas se dirigiram ao próprio Palácio, dando início ao que ficou conhecido como Invasão do Palácio das Tulherias. Por todo o dia, rugiu uma batalha sangrenta com os insurrecionistas combatendo contra os Guardas Suíços, ao final com 800 mortes. Já na manhã 11 de agosto, estava claro que a Comuna Insurrecionista governava Paris. A Comuna determinava que o Rei e a Rainha fossem feitos prisioneiros na Torre do Templo e que a Assembleia Nacional não tinha outra escolha a não ser concordar. Pelo sim, pelo não, a monarquia francesa estava morta.

Como Ministro da Justiça da Comuna Insurrecional, Danton ficou com o poder da cidade em suas mãos. Ele autorizou que comissários procurassem em cada casa ou apartamento por algum suspeito de simpatias pela realeza ou intenções contrarrevolucionárias. Ao final do mês, as prisões de Paris estavam explodindo com milhares de suspeitos traidores, ao mesmo tempo que a guilhotina era erguida na Praça da Revolução (Place de la Revolution) e usada para executar prisioneiros políticos condenados pela primeira vez.

Em 30 de agosto, a força invasora prussiana sitiou a vital fortaleza de Verdun. Danton, que havia tomado para si a defesa da cidade, convocou 30.000 Guardas Nacionais e voluntários para que fossem enviados ao front. No entanto, as pessoas se encontravam receosas em ir, temendo um motim monarquista que poderia libertar milhares de prisioneiros na ausência deles e que poderiam vir a destruir Paris. Em 2 de setembro, chegaram notícias à capital de que Verdun havia caído, quando multidões em pânico e enfurecidas se dirigiram às prisões de Paris, onde mataram os prisioneiros contrarrevolucionários. A carnificina prolongou-se por 5 dias quando 1.100 – 1.400 pessoas foram assassinadas. Apesar de Danton não orquestrar os Massacres de Setembro, como seus inimigos afirmariam mais tarde, é verdade que ele nada fez para que o movimento cessasse. Ao contrário, colocou seus esforços incitando os cidadãos para que defendessem a pátria, lançando seu mais famoso discurso em 2 de setembro: "Se formos duros, ainda mais duros e sempre duros, a França será salva!" (Doyle 191).

Essa ousadia logo teria sua recompensa. Em 20 de setembro, um exército francês impediu a invasão prussiana na Batalha de Valmy; no dia seguinte, foi proclamada a República Francesa. Os franceses avançaram para a Bélgica, capturando-a após a vitória na Batalha de Jemappes. Danton foi uma das vozes de liderança defendendo a anexação da Bélgica, acreditando que as fronteiras da República Francesa foram "delineadas pela natureza" e deveriam ser estendidas até o Reno. Era ele um ardoroso apoiador do expansionismo francês, dizendo, "temos o direito de dizer às outras nações que elas não terão mais reis" (Furet, 219).

Em fevereiro de 1793, Danton se encontrava em missão na Bélgica, tratando de sua anexação, quando recebeu a notícia de que sua esposa havia falecido ao dar à luz ao seu quarto filho, que também havia morrido. Danton disparou de volta à França, para encontrar que sua esposa já havia sido enterrada quatro dias antes. No calar da noite, ele exumou o cadáver dela para que ele pudesse vê-la pela última vez e comissionou um escultor para it até o túmulo para fazer um busto da esposa morta. Cinco meses depois ele voltou a se casar, agora com Louise Sébastienne Gély, de 16 anos, filha de um de seus companheiros do Cordeliers, muito embora pareça que ele nunca tenha se esquecido de sua falecida esposa.

Naquele momento, a guerra havia se voltado contra a França. A Coalizão havia retomado a Bélgica e o general francês Charles François Dumouriez havia mudado de lado para os austríacos. Isto colocou sobre Danton uma luz de suspeita. Somente alguns dias antes da traição de Dumouriez, Danton havia visitado o general, um fato que a facção política dos Girondinos usou para acusá-lo de ter ajudado o general. Por essa época, Danton também estava sendo acusado de corrupção. Ele havia quitado muito rapidamente suas dívidas, pela compra de seu escritório de advocacia e, em seguida, começou a comprar propriedades na França pagando tudo à vista e em espécie, dinheiro este que parecia surgir do nada. Ele se recusou a fornecer os recibos dessas transações, algo que seus inimigos agarraram com unhas e dentes.

Na primavera de 1793, cresceram as tensões entre os girondinos e a facção política de Danton, a Montanha. Danton ficou convencido que se devia fazer jorrar sangue. Era inevitável o Terror. Danton acreditava que era melhor para o governo controlar e vigiar a situação, evitando que a justiça fosse feita por multidões descontroladas. "Deixem sermos terríveis," disse ele, "dispensando de o povo assim o ser" (Furet,220). Em março de 1793, ele exerceu um papel fundamental na implantação do Tribunal Revolucionário e, no mês seguinte, auxiliou na criação do Comitê de Saúde Pública, um instrumento destinado a supervisionar a defesa nacional, sendo ele o primeiro membro. Assim, Danton exerceu o principal papel no lançamento da base para o Reinado do Terror, do qual logo iria se arrepender.

Como o membro que dominava o Comitê de Saúde Pública, Danton recuou de sua retórica expansionista do outono anterior. A preservação da República constituía sua prioridade e, consoante a ela, começou a ir atrás de uma negociação pacífica com as nações da coalizão antifrancesa. Essa política externa derrotista deixou-o sem amigos e, em 10 de julho, foi vencido em votação no Comitê. Robespierre assumiu seu lugar, conduzindo o Comitê em uma direção mais radical e lentamente acumulou poderes extraordinários. Durante a insurreição de 5 de setembro, Danton discursou para se atender às demandas do motim, inclusive considerando que se deveria fornecer armas a todos os cidadãos, formando um exército revolucionário para manutenção da autoridade republicana no interior do país. Ele recusou a oferta para que retornasse ao Comitê de Saúde Pública, que havia se tornado muito radical para seu gosto.

O final de 1793 viu o Terror acelerar; dezenas de milhares de contrarrevolucionários suspeitos foram presos, muitos dos quais enfrentaram julgamentos em simulacros de Tribunais Revolucionários que Danton havia ajudado a criar. Os girondinos, antes amigos de Danton, se opuseram politicamente a ele, deixando-o especialmente irritado: "Não poderei salvá-los", lamentou ele, em lágrimas, a um amigo. Cansado dos políticos e do derramamento de sangue, ele deixou Paris abruptamente em 12 de outubro, retornando para sua cidade natal com sua esposa e filhos. Por lá permaneceu mais de um mês, retornando a Paris em 21 de novembro. A partir de então, tornou-se líder da moderada facção Indulgente, que defendia o enfraquecimento do Terror.

A moderação de Danton levou-o a entrar em conflito com Jacques-René Hébert, um jornalista "ultrarrevolucionário" que tinha por objetivo intensificar o Terror e que tinha usurpado o Club Cordeliers das mãos de Danton. Desmoulins, que novamente agia como mão direita de Danton, publicou o Le Vieux Cordelier (O Velho Cordelier), um jornal que atacava os hebertistas e os excessos do Terror. A publicação, inicialmente, foi publicada com as bênçãos de Robespierre, que também desprezava os hebertistas. Mas, quando Desmoulins começou a usar seu jornal para criticar as próprias políticas terroristas de Robespierre, Desmoulins foi expulso do Clube Jacobino. Os indulgentes e robespierristas entraram, a partir de então, em rota de colisão.

A posição de Danton não foi de ajuda quando seu amigo próximo e apoiador, Fabre d'Églantine foi preso em janeiro de 1794, devido ao escândalo em torno da Companhia das Índias Orientais francesa. Quando Danton foi em defesa de seu amigo, foi ele acusado de ser cúmplice no escândalo. Com a sensação de fraqueza, Hébert elevou seus ataques contra os Indulgentes, endurecendo os corações radicais contra eles, até que Hébert e seus aliados foram executados em março de 1794. Com o desaparecimento dos hebertistas, os Indulgentes tornaram-se a maior ameaça para a autoridade de Robespierre. Danton, avisado diversas vezes de que corria perigo e que poderia ser preso, ele levou isto na brincadeira, "eles não se atreverão!". Porém, na noite de 29-30 de março, Danton, Desmoulins e outros líderes dos Indulgentes, foram presos.

De 2 a 4 de abril, Danton foi julgado perante o Tribunal Revolucionário. A multidão de assistentes que lotaram a local foi uma afirmação de sua popularidade. Ele deixou o melhor para o final, um show memorável, trovejando a respeito de seu patriotismo e a injustiça de seu julgamento até ser obrigado a ficar em silêncio. Em abril de 1794, Danton foi o último a ser guilhotinado, um grupo que incluía Desmoulins, Hérault de Séchelles, Fabre d'Églatine e Pierre Philippeaux. Após ver a execução de seus melhores amigos, o próprio Danton se colocou embaixo da lâmina. "Mostre minha cabeça ao povo", disse ele ao carrasco, "ela é digna de ser vista" (Davidson, 216).

Imediatamente após sua morte, Danton foi vilipendiado pelos robespierristas, acentuando sua corrupção e utilizando sua venalidade como prova de que ele nunca foi um verdadeiro patriota. Isto permaneceu como seu legado por quase um século até que a Terceira República Francesa precisou desenterrar heróis da França republicana em consequência da Guerra Franco-prussiana (1870-1871). Danton era candidato óbvio para o heroísmo nacional, devido ao seu envolvimento na defesa da Primeira República Francesa. Como Danton deixou poucos escritos, seus pensamentos e opiniões reais nunca serão conhecidos, o que tem sido motivo de longos debates entre os estudiosos. Apesar de tudo, sua presença, maior que sua própria vida, afetou profundamente a Revolução Francesa, deixando sobre ela sua marca inconfundível.