Nascido em condições de escravatura na zona rural da Geórgia, John Wesley Gilbert (1863-1923) ganhou proeminência a nível nacional como académico, professor, líder comunitário e missionário cristão. Entre 1890 e 1891, foi o primeiro membro afro-americano da Escola Americana de Estudos Clássicos (American School of Classical Studies) de Atenas. Esteve entre os primeiros 50 americanos, independentemente da raça, etnia ou origem, a realizar trabalho arqueológico profissional na Grécia.

Durante grande parte do século XX, Gilbert foi mais conhecido pela sua missão de 1911-1912 no Congo Belga, ao lado do bispo Walter Russell Lambuth, da Igreja Metodista Episcopal do Sul (Methodist Episcopal Church, South - MECS) (a MECS passou, entretanto, a fazer parte da Igreja Metodista Unida). A estadia de Gilbert na Grécia, entre 1890 e 1891, na Escola Americana de Estudos Clássicos de Atenas, em contraste, foi frequentemente mencionada de passagem, mas nunca foi objeto de um estudo sério. Em 2011, a recém-fundada Sociedade de Arqueólogos Negros reconheceu Gilbert como o primeiro arqueólogo afro-americano com formação profissional. Hoje, é frequentemente referido como «o primeiro arqueólogo negro». No entanto, a sua vida, e especialmente o ano que passou na Grécia, nunca recebeu a análise aprofundada que merece, até agora.

Ninguém sabia ao certo como o incêndio tinha começado. Nas primeiras horas da madrugada de 3 de agosto de 1968, as chamas varreram o Haygood Memorial Hall, o edifício principal do Paine College, uma instituição historicamente negra em Augusta, na Geórgia. Os transeuntes reuniram-se para assistir, impotentes, enquanto o fogo se alastrava, engolindo a famosa torre do relógio do Haygood, que durante quase 70 anos tinha marcado as horas com um som suficientemente alto para ser ouvido por toda a cidade. A estrutura ainda fumegava ao nascer do sol. A torre do relógio permanecia de pé, mas estava demasiado danificada para ser salva e teve de ser demolida. No interior, o cenário era de devastação. Embora armários à prova de fogo tivessem protegido os registos recentes dos estudantes, os gabinetes do reitor e do vice-reitor da Paine foram destruídos, juntamente com uma coleção inestimável de artefactos africanos. Muitos dos primeiros catálogos, jornais e outros registos da instituição também pereceram.

A trágica perda de grande parte do registo histórico da Paine tem dificultado o estudo da história da instituição e, especialmente, do seu primeiro aluno, primeiro licenciado, primeiro membro negro do corpo docente e, talvez, o seu ex-aluno mais famoso: John Wesley Gilbert. Uma série de inundações e incêndios em Augusta, entre 1880 e 1920 — que muitas vezes afetavam mais gravemente os bairros negros — já tinha varrido grande parte das provas escritas da sua vida. Tudo o que a família de Gilbert conservou após a sua morte, em 1923, começou a desaparecer à medida que os seus filhos se dispersaram de Augusta, e ele não tinha netos para preservar os documentos de família. Em 1968, a Paine detinha as últimas cópias existentes de muitos documentos relativos à carreira de Gilbert.

John Wesley Gilbert nasceu em cativeiro na zona rural da Geórgia, em 1863. Após a Emancipação, o jovem Gilbert teve as suas primeiras aulas nas escolas públicas segregadas de Augusta, na Geórgia. Frequentou depois o Instituto de Augusta, patrocinado pela Igreja Batista, e o Seminário Batista de Atlanta (antecessores do Morehouse College) e, em 1886, tornou-se o primeiro licenciado do Instituto Paine (hoje Paine College), uma fundação cooperativa de metodistas brancos e negros. Entre 1886 e 1888, Gilbert estudou grego e latim na Universidade de Brown, tornando-se o terceiro licenciado negro daquela instituição em 1888. Regressou a Augusta, onde viria a lecionar no Paine até quase ao fim da sua vida. Em 1890-91, teve a oportunidade de viajar para a Grécia graças a uma bolsa da Universidade de Brown.

Gilbert foi o primeiro afro-americano e um dos primeiros 50 americanos, independentemente da raça, etnia ou origem, a frequentar a Escola Americana de Estudos Clássicos em Atenas. Fundada em 1881 por um consórcio de faculdades e universidades americanas para promover o estudo da literatura, história, arte e arqueologia da Grécia antiga, a Escola Americana foi a primeira instituição de investigação dos Estados Unidos no estrangeiro e é hoje um centro de investigação e ensino reconhecido internacionalmente. Gilbert foi um dos primeiros americanos a realizar trabalho arqueológico profissional na Grécia — na verdade, em qualquer parte do Mediterrâneo e do Próximo Oriente.

Gilbert foi o primeiro académico americano a escrever sobre os demos urbanos (bairros ou distritos) de Atenas, um tema de importância fundamental para a compreensão da democracia ateniense. A sua tese sobre os demos atribuiu-lhe um mestrado pela Universidade de Brown, tornando-o um dos pioneiros afro-americanos a obter um grau académico avançado em estudos clássicos. Na Eretria, participou na escavação amplamente divulgada do «túmulo de Aristóteles» e, mais importante ainda, trabalhou num dos primeiros levantamentos arqueológicos e topográficos americanos de um sítio antigo. Além disso, Gilbert viveu a Grécia num momento crucial da história moderna do país, numa altura em que a influência europeia, os caminhos-de-ferro, o mercado internacional de produtos como passas e tabaco e os primórdios do turismo de massas estavam a remodelar a economia e a sociedade do país.

John Wesley Gilbert deixou um legado extraordinário como estudioso, professor, líder comunitário, ativista dos direitos civis e missionário. Para além da sua fama como «o primeiro arqueólogo negro», a sua vida e obra abordaram muitos aspetos diferentes da experiência afro-americana. Conhecer melhor Gilbert abre caminho para uma melhor compreensão das enormes conquistas de toda uma geração de estudantes e educadores negros no final do século XIX e início do século XX, conquistas que hoje em dia são frequentemente ignoradas.