O Génesis de Eridu (incipit: u_4 ri-a u_4 ba-ri-a; também conhecido como a História do Dilúvio Sumério, a História do Dilúvio, o mito da criação sumério ou o mito do dilúvio sumério) é o texto mesopotâmico mais antigo que relata a história do Grande Dilúvio, que viria a aparecer em obras posteriores, como o Atrahasis (século XVII a.C.) e A Epopeia de Gilgamesh (cerca de 2150-1400 a.C.). O título da obra é de origem moderna, tendo sido cunhado em 1981 pelo estudioso Thorkild Jacobsen; o nome original da obra é desconhecido.
A história apresentada no Génesis de Eridu é também — e de forma mais conhecida — contada como a história de Noé e da sua arca, do livro bíblico do Génesis (data mais antiga possível por volta de 1450 a.C., mais recente por volta de 800-600 a.C.). O Génesis de Eridu data de cerca de 1600 a.C. na sua forma escrita, mas acredita-se que seja muito mais antigo (cerca de 2300 a.C.), tendo sido preservado pela tradição oral até ser transcrito para a escrita.
A obra que nos chegou está muito danificada, com várias linhas significativas em falta, mas ainda assim pode ser lida e facilmente compreendida como uma das primeiras histórias do Grande Dilúvio. Os estudiosos que analisaram o texto baseiam-se geralmente no Atrahasis acádico/babilónico posterior — que conta a mesma história — para preencher as lacunas do texto em falta na tabuleta danificada.
É muito provável que a história tenha influenciado a «história do dilúvio» egípcia conhecida como O Livro da Vaca Celestial (datada, em parte, do Primeiro Período Intermédio do Egito, 2181-2040 a.C.), mas foi certamente a inspiração para as obras mesopotâmicas posteriores, bem como para a narrativa bíblica de Noé.
A história foi descoberta em 1893, durante o período de expedições e escavações generalizadas por toda a Mesopotâmia, financiadas por instituições ocidentais. O homem bom nesta versão do conto, escolhido para sobreviver ao dilúvio e preservar a vida na Terra, é o Rei-Sacerdote Ziudsura da cidade de Suruppak (cujo nome significa «vida de dias longos»). Esta mesma figura aparece em As Instruções de Shuruppag (cerca de 2500/2000 a.C.) e como Atrahasis («extremamente sábio») na obra posterior que leva o seu nome, como Utnapishtim («aquele que encontrou a vida») n'A Epopeia de Gilgamesh e como Noé («descanso» ou «paz») no livro do Génesis.
No século XIX, as instituições ocidentais, incluindo museus e universidades, financiaram expedições à Mesopotâmia na esperança de encontrar provas materiais que corroborassem a historicidade das narrativas bíblicas. O século XIX assistiu a uma prática sem precedentes de leituras cada vez mais críticas da Bíblia, que questionavam crenças de longa data relativamente à sua origem divina e suposta infalibilidade.
Esta era de cepticismo viria a assistir à publicação de Charles Darwin, em 1859, da obra A Origem das Espécies (tít. original: On the Origin of Species by Means of Natural Selection, ou the Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life), sugerindo que os seres humanos, em vez de terem sido criados por Deus como «um pouco inferiores aos anjos» (Salmo 8:5), evoluíram a partir dos primatas.
Em 1882, o filósofo alemão Friedrich Nietzsche publicou a sua obra A Gaia Ciência (tít. original: Die fröhliche Wissenschaft), que contém a famosa frase: «Deus está morto e fomos nós que o matámos», aludindo ao aparente triunfo da tecnologia e do secularismo sobre as crenças religiosas tradicionais. Antes do surgimento do cepticismo secular, e mesmo durante o período em que Darwin e Nietzsche escreviam, a Bíblia era considerada o livro mais antigo do mundo, totalmente original e de origem divina.
Esta visão foi incentivada pelo trabalho do arcebispo James Ussher (1581-1656), criador da Cronologia de Ussher, que, baseando-se principalmente no livro do Génesis e fazendo referência a outras narrativas bíblicas, data a criação do mundo a 22 de outubro de 4004 a.C., às 18h00. Uma vez que se acreditava que a Bíblia tinha sido escrita por Deus, era infalível e podia ser considerada fiável não só para determinar a idade da Terra, mas também para qualquer outro aspeto da existência humana.
As expedições enviadas à Mesopotâmia tinham como objetivo encontrar provas que sustentassem esta visão, mas encontraram exatamente o oposto. As tabuinhas cuneiformes, decifradas a partir de meados do século XIX, desafiaram diretamente a visão tradicional da Bíblia, na medida em que continham uma série de histórias, motivos e símbolos que apareciam nas narrativas bíblicas e eram anteriores a elas; entre estes encontrava-se a História do Dilúvio sumério, o primeiro relato conhecido da história que as pessoas da época conheciam como a Arca de Noé.
A tabuinha, bastante danificada, foi descoberta nas ruínas da antiga cidade de Nipur por uma expedição financiada pela Universidade da Pensilvânia em 1893. Permaneceu por traduzir até 1912, altura em que o assiriologista alemão Arno Poebel (1881-1958) a decifrou no âmbito do seu trabalho para a Universidade da Pensilvânia.
A existência de um relato pré-bíblico do dilúvio de Noé — já tornada evidente pela tradução de George Smith d'A Epopeia de Gilgamesh em 1876 — sugeriu a alguns que a interpretação tradicional da Bíblia precisava de ser repensada, enquanto, para outros, significava que um relato mesopotâmico de um grande dilúvio corroborava a história bíblica, apenas de outro ponto de vista.
O arqueólogo britânico Sir Leonard Woolley (1880-1960) contestou esta última afirmação através das suas escavações nas ruínas da antiga Ur, na década de 1920. Durante a época de escavações de 1928-1929, Woolley cavou uma série de poços no solo e determinou que tinha havido inundações significativas na região, mas que se tratava de um evento local, e não global, e, além disso, não era um incidente isolado, tendo-se repetido várias vezes quando os rios Tigre e Eufrates transbordaram das suas margens.
As escavações de Wooley tiveram eco noutros locais da Mesopotâmia por parte de outros arqueólogos, que chegaram à mesma conclusão. A historicidade e a originalidade da narrativa bíblica do Grande Dilúvio deixaram de poder ser defendidas, e a cronologia de Ussher foi contestada e rejeitada pelos estudiosos (embora ambas continuem a ser defendidas pelos cristãos nos dias de hoje que defendem a chamada «Visão da Terra Jovem»). A estudiosa Stephanie Dalley, ao comentar sobre novas escavações na Mesopotâmia ao longo do século XX, escreve:
Não foram encontrados depósitos de inundação nos estratos do terceiro milénio, e a data do arcebispo Ussher para o Dilúvio, 2349 a.C. — calculada tomando os números do Génesis ao pé da letra e sem reconhecer o quão esquemática é a cronologia bíblica para épocas tão remotas — está agora fora de questão.
(pág. 5)
A pequena tabuleta com a história do Génesis de Eridu , encontrada em Nipur — da qual falta grande parte da narrativa —, proporcionou a Woolley a liberdade académica para fazer, na década de 1920, o tipo de afirmações relativas ao dilúvio que teriam sido impensáveis apenas um século antes.
O Génesis de Eridu começa com a criação do mundo, do «povo de cabeça negra» (os sumérios) e, em seguida, dos animais. Os deuses sumérios responsáveis pelo ato da criação — An (Anu), Enlil, Enki e Ninhursag — continuariam a figurar entre as divindades sumérias mais poderosas durante séculos, até serem eclipsados pelos paradigmas teológicos amorreus sob o reinado de Hamurabi da Babilónia (1792-1750 a.C.) e, mais tarde, pelos assírios.
Após a criação dos seres humanos e dos animais, os deuses decretam a fundação de cidades, começando por Eridu, considerada a cidade mais antiga do mundo. Cada uma das cidades é confiada a um deus para que este a supervisionasse — estabelecendo assim a tradição de cada cidade ter a sua divindade padroeira — e parece haver uma referência à posterior implantação de sistemas de irrigação.
Após esta secção da narração, faltam várias linhas, que deveriam ter explicado por que razão os deuses An e Enlil — os líderes do panteão sumério — decidiram destruir a humanidade com um grande dilúvio. Na versão posterior de Atrahasis, a razão é que as pessoas se tornaram demasiado numerosas e barulhentas, perturbando o descanso de Enlil.
Em Atrahasis, Enlil envia uma seca, depois uma praga e, por fim, uma fome à Terra para reduzir a população e acalmar o barulho dos humanos, mas, em cada ocasião, Enki (deus da sabedoria e amigo da humanidade) diz às pessoas o que devem fazer para reverter as pragas de Enlil, e estas conseguem continuar com as suas vidas como antes. É provável que estes detalhes também tenham aparecido no anterior Génesis de Eridu, onde Enki desempenha o mesmo papel.
A história prossegue, referindo que todos os deuses fazem um juramento — presumivelmente de que não irão interferir na decisão de An-Enlil de destruir a humanidade — e, em seguida, é apresentada a figura central do conto: Ziudsura, um rei da cidade de Suruppak e um sacerdote. Uma vez que Enki, presumivelmente, prestou o juramento de não interferir no dilúvio juntamente com todos os outros deuses, não pode avisar Ziudsura diretamente e, por isso, fala para uma parede, sabendo que Ziudsura, do outro lado dela, o ouvirá.
Nesta altura, faltam mais algumas linhas, que teriam detalhado a construção de uma grande embarcação por parte de Ziudsura, a qual encheu com animais e «a semente da humanidade». A narrativa retoma-se com uma descrição do dilúvio, que se prolonga durante sete dias e sete noites, até que os mares se acalmam e Utu (Utu-Shamash, o deus do sol) aparece. Ziudsura faz um buraco na lateral da embarcação e Utu, sob a forma de raios de sol, entra. Ziudsura faz, cumprindo o seu dever, um sacrifício ao deus, mas o que acontece a seguir perdeu-se devido a mais versos em falta.
No final, An e Enlil parecem ter-se arrependido da sua decisão, pois estão gratos por Ziudsura ter preservado as suas criações. Concedem-lhe a vida eterna no paraíso da terra de Dilmun. Com base nos fragmentos da tabuinha, parece que a história continuou após esta aparente conclusão por mais 39 linhas, mas o conteúdo está perdido.
A tradução infa é do texto extraído The Literature of Ancient Sumer (A Literatura da Antiga Suméria), traduzido para inglês pelos estudiosos Jeremy Black, Graham Cunningham, Eleanor Robson e Gábor Zólyomi. A primeira linha, que faz referência a impedir «a aniquilação das minhas criaturas», poderá sugerir que os deuses inicialmente concederam aos seres humanos uma longa esperança de vida para que fossem seus colaboradores, assumindo as suas tarefas e tornando a Terra agradável para eles, tal como a história é contada em Atrahasis.
No Atrahasis, após o dilúvio, os deuses tomam medidas para limitar a esperança de vida humana e aumentar a mortalidade, e este tipo de detalhes pode ter constituído o texto em falta do anterior Génesis de Eridu, que se segue:
Vou impedir a aniquilação das minhas criaturas e farei com que as pessoas regressem aos seus locais de habitação. Que construam muitas cidades para que eu possa refrescar-me à sua sombra. Que coloquem os tijolos de muitas cidades em locais puros, que estabeleçam locais de adivinhação em locais puros e, quando o apagamento do fogo… estiver organizado, os ritos divinos e os poderes exaltados estiverem aperfeiçoados e a Terra estiver irrigada, estabelecerei ali o bem-estar.
Depois de An, Enlil, Enki e Ninhursag terem criado o povo de cabeça negra, fizeram também com que os animais se multiplicassem por toda a parte e que existissem manadas de animais de quatro patas nas planícies, como convém.
Eu supervisionarei o seu trabalho. Que… o construtor da Terra cave uma fundação sólida.
Depois de a… da realeza ter descido do céu, depois de a coroa exaltada e o trono da realeza terem descido do céu, os ritos divinos e os poderes exaltados foram aperfeiçoados, os tijolos das cidades foram assentes em lugares sagrados, os seus nomes foram anunciados e os… foram distribuídos. A primeira das cidades, Eridu, foi entregue a Nudimmud, o líder. A segunda, Bad-tibira, foi entregue à Senhora. A terceira, Larag, foi entregue a Pabilsag. A quarta, Zimbir, foi entregue ao herói Utu. A quinta, Suruppag, foi entregue a Sud. E depois de os nomes destas cidades terem sido anunciados e os… terem sido distribuídos, o rio… foi irrigado.
…trono no céu…inundação…humanidade. Assim, ele criou…Então Nintud…A Santa Inanna entoou um lamento pelo seu povo. Enki consultou-se consigo mesmo. An, Enlil, Enki e Ninhursag fizeram com que todos os deuses do céu e da terra prestassem um juramento invocando An e Enlil. Naqueles dias, Ziudsura, o rei, o sacerdote gudug… Ele moldou… O humilde, dedicado, reverente… Dia após dia, permanecendo constantemente em… Algo que não era um sonho apareceu, conversa… prestando um juramento invocando o céu e a terra. No Ki-ur, os deuses… uma parede.
Ziudsura, de pé ao seu lado, ouviu: «Muralha lateral à minha esquerda, …Muralha lateral, vou dirigir-te algumas palavras; presta atenção às minhas palavras, segue as minhas instruções. Uma inundação varrerá o… em toda a… Foi tomada a decisão de que a semente da humanidade deve ser destruída. O veredicto, a palavra da assembleia divina, não pode ser revogado. A ordem anunciada por An e Enlil não pode ser anulada. O seu reinado, o seu mandato foi interrompido; o seu coração deve estar tranquilo quanto a isto…
Todas as tempestades e vendavais se levantaram em uníssono e o dilúvio varreu a . Depois de o dilúvio ter varrido a terra, e de as ondas e tempestades terem abalado a enorme embarcação durante sete dias e sete noites, Utu, o deus do sol, surgiu, iluminando o céu e a terra. Ziudsura conseguiu abrir uma brecha na enorme embarcação e o herói Utu entrou nela com os seus raios. Ziudsura, o rei, prostrou-se perante Utu. O rei sacrificou bois e ofereceu inúmeras ovelhas.
«Fizeram-te jurar pelo céu e pela terra… An e Enlil fizeram-te jurar pelo céu e pela terra…»
Cada vez mais animais desembarcavam na terra. O rei Ziudsura prostrou-se perante An e Enlil. An e Enlil trataram Ziudsura com bondade… concederam-lhe uma vida semelhante à de um deus, concederam-lhe a vida eterna. Naquela altura, para preservar os animais e a semente da humanidade, instalaram o rei Ziudsura num país ultramarino, na terra de Dilmun, onde o sol nasce…
O Génesis de Eridu é considerado o primeiro relato escrito do mito popular de um dilúvio mundial provocado por uma força divina, que aparece em quase todas as culturas do mundo antigo. O tratamento aparentemente universal da mesma história levou alguns a sugerir que tal evento deve ter ocorrido, ao qual pessoas de diferentes culturas, de forma independente, responderam com a criação da história. Os estudiosos atuais tendem a rejeitar esta interpretação e sugerem, em vez disso, que uma história primitiva sobre um Grande Dilúvio e a destruição da humanidade teve ressonância junto de um público antigo e passou a ser amplamente repetida, viajando de uma região para outra através do comércio.
Cada cultura adaptou a história às suas próprias necessidades e visão, pelo que a versão original foi alterada, em maior ou menor grau, à medida que era contada — e depois transcrita — em diferentes locais. A versão original pode ou não ter sido o Génesis de Eridu, mas muitos estudiosos da atualidade, incluindo Stephanie Dalley, acreditam que sim. Dalley escreve:
Todas estas histórias do dilúvio podem ser explicadas como derivadas de um único original mesopotâmico, utilizado em relatos de viajantes durante mais de dois mil anos, ao longo das grandes rotas de caravanas da Ásia Ocidental: traduzido, embelezado e adaptado de acordo com os gostos locais, dando origem a uma miríade de versões divergentes.
(pág. 7)
O conceito da ira de um deus — ou do descontentamento coletivo de muitos deuses — como causa de eventos catastróficos era entendido simplesmente como a forma como o mundo funcionava pelas civilizações antigas em todo o mundo. A história do Grande Dilúvio teria servido a vários propósitos, mas explicava principalmente a criação do mundo tal como as pessoas o conheciam, ao mesmo tempo que sugeria fortemente que prestassem maior atenção à vontade divina nas suas vidas quotidianas.
Em cada versão da história do dilúvio acima mencionada, os deuses – ou Deus – arrependem-se da sua decisão; na história do Génesis, Deus chega mesmo a colocar o arco-íris no céu como promessa de que nunca mais inundaria o mundo; mas, para um público antigo, isso não significaria que o divino não pudesse, com a mesma facilidade, enviar algum castigo igualmente terrível pela transgressão humana da sua vontade, em algum momento no futuro, sempre que assim o desejasse.
A história teria, então, encorajado as pessoas a pecarem por excesso de cautela ao aderirem aos preceitos religioso-culturais, a fim de manter a boa vontade de uma divindade ou divindades que poderiam, com a mesma facilidade, destruí-las como apoiá-las.