A História de Genji (tít. original: 源氏物語 ; transliterado: Genji Monogatari) foi escrito no século XI por Murasaki Shikibu, uma dama da corte, e é o romance mais antigo do Japão e, possivelmente, o primeiro romance da literatura mundial. Este clássico da literatura japonesa descreve a vida e os amores do príncipe Genji e destaca-se pela rica caracterização das personagens e pelas descrições vívidas da vida na corte imperial japonesa. A obra é famosa por reproduzir a frase «a tristeza das coisas» mais de 1 000 vezes e tem exercido uma enorme influência na literatura e no pensamento japoneses desde que foi escrita. A História de Genji continua a ser regularmente retraduzida para o japonês moderno, pelo que o seu impacto na imaginação da nação não mostra sinais de enfraquecimento.
Considera-se que a autora da obra seja uma dama da corte imperial chamada Murasaki Shikibu, que a escreveu ao longo de vários anos e a concluiu por volta de 1020, durante o período Heian (794-1185). Murasaki é também conhecida como To no Shikibu. «Murasaki» era uma alcunha e «shikibu» significa «secretária», que era a função do seu pai, uma vez que, no Japão antigo, era comum chamar uma filha pelo cargo do pai. Ela pertencia ao clã Fujiwara. Pensa-se que tenha nascido por volta de 973 e que tenha falecido após 1013, data da última menção à sua pessoa em documentos da corte. Os detalhes da sua vida são escassos, exceto que o pai era Fujiwara no Tametoki, um governador provincial, e que se casou com um membro do clã Fujiwara, Fujiwara no Nobutaka, com quem teve uma filha, Daini no Sammi. O marido de Murasaki faleceu em 1001, tendo ela passado então a ser dama de companhia (nyobo) da Imperatriz Akiko (também conhecida como Shoshi), onde demonstrou grande talento nas artes, nomeadamente na caligrafia, na harpa (koto), na pintura e na poesia. Para além do romance, outras obras de Murasaki que chegaram até nós incluem poemas e o seu diário.
O título japonês 源氏物語 (Genji Monogatari) foi traduzido como A História de Genji (publicado em Portugal em dois volumes, numa tradução direta do japonês). É composto por 54 capítulos e 750 000 palavras, embora os últimos 13 capítulos sejam considerados por uma minoria de estudiosos como uma adição posterior, principalmente porque a história deixa de se centrar em Genji para se centrar no seu filho Kaoru e assume um tom mais sombrio. Os estudiosos também não chegam a um consenso quanto à ordem dos capítulos, uma vez que muitos parecem ser inserções posteriores do autor e vários são capítulos paralelos ou «narabi» , nos quais os acontecimentos não ocorrem posteriormente, mas sim em simultâneo com os descritos nos capítulos «normais» anteriores (hon no maki).
A obra descreve a vida na corte imperial japonesa, a sua etiqueta e intrigas e, acima de tudo, a figura central do príncipe Genji, o cavalheiro perfeito tanto na aparência como nas ações. As relações de Genji, os seus casos amorosos e a transição da juventude para a meia-idade são todos retratados pela escrita perspicaz de Murasaki, que combina romantismo e realismo em igual medida para apresentar uma abordagem intemporal das relações humanas e da impermanência geral de todas as coisas. O resumo que se segue destaca a contribuição d'A História de Genji para a literatura mundial:
Os «romances» anteriores assemelhavam-se demasiado a contos de fadas ou, sendo realistas, não demonstravam sensibilidade para a complexidade e a capacidade de evolução das suas personagens. O livro de Murasaki Shikibu, embora seja ficção imaginativa, é fiel à vida tanto do ponto de vista descritivo como psicológico. Aborda a sociedade tal como era e as pessoas tal como eram. Esta mulher notável desenvolveu de forma independente o romance como uma verdadeira forma literária.
(Mason, pág. 96)
Nas suas próprias palavras, Murasaki descreve esta descoberta:
Mas tenho uma teoria própria sobre o que é esta arte do romance... ela surge porque a própria experiência do narrador com as pessoas e as coisas, para o bem ou para o mal — não só aquilo por que ele próprio passou, mas até mesmo acontecimentos dos quais apenas foi testemunha ou que lhe foram contados — o comoveu de tal forma que já não consegue mantê-la guardada no seu coração. Repetidamente, algo na sua própria vida ou no que o rodeia parecerá ao escritor tão importante que ele não suportará deixá-lo cair no esquecimento.
(Idem)
O livro está escrito num estilo notoriamente complexo, com frequentes ambiguidades poéticas e mais de 800 poemas inseridos, mas foi um sucesso imediato e rapidamente ganhou reputação como um clássico intemporal. Desde então, tem sido lido, estudado, referido, citado extensivamente e imitado em inúmeras obras literárias e peças de teatro japonesas posteriores. Foram feitas belas edições com ilustrações pintadas, para além da caligrafia, uma arte, evidentemente, por si só. De facto, as pinturas em rolo (onnae) mais antigas do Japão — e há quem diga que são as mais belas — são 19 ilustrações (cada uma com 21,8 cm de altura) de uma edição abreviada d'A História de Genji , que se acredita terem sido pintadas na década de 1120 ou 1130.
Parte 1
A História de Genji abrange a vida do príncipe Genji e, posteriormente, a dos seus descendentes, num período de cerca de 70 anos. A história passa-se no auge do período Heian, durante o reinado do imperador Daigo, entre 897 e 930. O príncipe Hikaru Genji é filho de um imperador, mas não pertence à linha direta de sucessão ao trono. Embora Genji seja uma personagem fictícia, existiu na corte imperial uma figura semelhante com uma história semelhante, um tal Minamoto no Takaakira, o décimo filho do imperador Daigo, que teria sido conhecido tanto por Murasaki como pelos seus leitores.
Começamos com o nascimento de Genji e ficamos a saber que a mãe, Kiritsubo, tem um estatuto baixo na corte e é maltratada pelas outras esposas do imperador. Kiritsubo morre quando Genji tem apenas três anos. Um especialista em adivinhação da Coreia prevê que, caso Genji venha a ascender ao trono, o Estado sofrerá um desastre. Kokiden, consorte do imperador, é também uma inimiga invejosa de Genji. O imperador responde à profecia transformando o príncipe num plebeu com o apelido Minamoto ou Genji. No entanto, o imperador ama muito Genji e permite-lhe residir no palácio real.
O imperador encontra então uma mulher, Fujitsubo, que se assemelha muito a Kiritsubo, e convida-a para a corte para ser a sua primeira consorte. Uma verdadeira beldade, Genji apaixona-se perdidamente pela sua madrasta, mas, aos 12 anos, casa-se com Aoi, seis anos mais velha do que ele. Encantado por Fujitsubo, o casamento de Genji é um fracasso. Ele tem inúmeros casos amorosos, sendo o mais significativo com uma rapariga de origem humilde chamada Murasaki, que se assemelha a Fujitsubo e com quem mais tarde se casará. Genji tem dois filhos: um com Aoi, chamado Yugiri, e outro com a sua madrasta, que, reconhecido como filho do próprio imperador, se tornará o futuro Imperador Reizei. Genji sente vergonha do seu caso com Fujitsubo, mas quando Reizei descobre quem é o seu verdadeiro pai, concede a Genji a grande honra de um posto equivalente ao de um imperador aposentado. Trata-se de uma compensação pelo exílio anterior de Genji em Suma (onde passou o tempo envolvido num caso com a Senhora de Akashi, filha do antigo governador).
Genji e a Senhora Rokujo: «Por fim, a noite terminou num amanhecer que parecia ter sido criado especialmente para o seu deleite. "Triste é qualquer despedida ao vermelho do amanhecer; mas nunca, desde que o mundo começou, o dia brilhou de forma tão trágica no céu de outono", e enquanto recitava estes versos, horrorizado por ter de a deixar, ficou hesitante e colocou-lhe a mão ternamente na sua.»
(Keene, pág. 499)
Parte 2
O Imperador Suzaku, agora aposentado, pede a Genji que se case com a sua terceira filha, pois está preocupado com o bem-estar futuro dela. Genji, cuja primeira esposa, Aoi, morreu no parto devido aos desejos maléficos de uma antiga amante, a senhora Rokujo, concorda com o pedido, mas a rapariga é também sobrinha de Fujitsubo. A outra esposa de Genji, Murasaki, fica com ciúmes, apesar da explicação de Genji para as suas ações e da reiteração dos seus sentimentos por ela, o seu verdadeiro amor. No entanto, Murasaki manifesta o desejo de se tornar freira, mas acaba por adoecer e morrer. Entretanto, a princesa tem um caso com Kashiwagi, o filho do melhor amigo de Genji, To no Chujo. Genji é então obrigado a aceitar na sua família a criança resultante desta ligação ilícita, Kaoru.
Parte 3
A parte final do livro, composta por 10 capítulos frequentemente designados por capítulos de Uji (local onde se desenrola esta parte da história), passa-se após a morte de Genji e relata os problemas e intrigas que assolam os seus descendentes, em particular Kaoru, o seu filho, e Niou, o neto de Genji. Ambos os homens, depois de se envolverem com duas princesas, Oigimi e Nakanokimi, apaixonam-se pela mesma mulher, Ukifune, meia-irmã das princesas. Ambos os personagens masculinos empalidecem quando comparados com a figura superlativa de Genji. Ukifune, apanhada numa situação impossível, tenta suicidar-se, mas falha e torna-se freira, recusando-se a ver os seus antigos amantes. É aí que a história termina.