Cerdic de Wessex (reinou entre 519 e 534) foi rei dos saxões ocidentais e o fundador de Wessex. A sua influência foi tão profunda que as genealogias posteriores da monarquia inglesa viriam a afirmar que todos os soberanos da Grã-Bretanha, com exceção de Canuto, Hardecanuto, os Haroldos e Guilherme, o Conquistador, descendiam dele.
No entanto, a razão exata pela qual foi tão influente é objeto de debate, uma vez que as fontes antigas apresentam contradições nos relatos sobre a sua vida, quem ele era e o que realizou — a tal ponto que vários historiadores atuais questionam se Cerdic chegou mesmo a existir.
Fontes antigas, lendas tradicionais e romances posteriores afirmam que ele lutou contra o Rei Artur, mas também que lhe foi concedido o Wessex por esse mesmo rei. Há também historiadores que afirmam que Cerdic foi a figura histórica na qual se baseiam as lendas arturianas e que associam tanto Artur como Cerdic ao herói galês Caradoc Vreichvras, enquanto outros autores afirmam que Cerdic serviu de modelo para Mordred nos ciclos arturianos. É descrito alternadamente como um conde britânico que liderou um exército saxão, um nobre inglês, um comandante saxão, um herói galês e um rei inglês.
A sua representação no filme «King Arthur», de 2004, é emblemática do problema em identificar quem ele realmente foi. O filme (no qual é interpretado pelo ator sueco Stellan Skarsgard), que se apresentava como historicamente preciso e alegava basear-se em fontes originais, retrata Cerdic como um senhor da guerra saxão derrotado por Artur na Batalha de Badon; Cerdic nunca é mencionado em nenhum relato sobre Badon, embora pareça ter sido suficientemente conhecido para que o fosse, caso tivesse participado nessa batalha.
As fontes primárias sobre a vida e o reinado de Cerdic são o historiador Nennius (século IX), as Crónicas Anglo-Saxónicas (tít. orignal: The Anglo-Saxon Chronicles; séculos IX-XII) e Godofredo de Monmouth (século XII), entre outras. Como a informação sobre ele nestas fontes é tão escassa, os escritores posteriores parecem ter-se sentido compelidos a preencher estas lacunas, o que resultou em várias interpretações da vida de Cerdic.
O facto de tantos escritores posteriores terem sentido a necessidade de o fazer é testemunho da importância de Cerdic na história inglesa. É geralmente aceite que Cerdic foi uma figura histórica real que fundou o Wessex e, posteriormente, empreendeu campanhas para expandir o seu reino e, essencialmente, fundou a nação hoje conhecida como Inglaterra; os detalhes dessas campanhas, no entanto, nunca foram registados ou perderam-se, o que resultou nos embelezamentos da sua vida acima referidos.
As Crónicas Anglo-Saxónicas são manuscritos cuja redação teve início no final do século IX, durante o reinado de Alfredo, o Grande (viveu 849-899/reinou 871-899). Continuaram a ser escritas, editadas e reescritas ao longo do século XII e registam a história da Grã-Bretanha desde 1 a.C. até 1154. Os problemas relativos à fiabilidade d'As Crónicas Anglo-Saxónicas têm sido assinalados por muitos historiadores ao longo dos séculos e, entre estas dificuldades, destaca-se o facto de as entradas (registadas em uma ou duas linhas por acontecimento por ano) fornecerem poucos pormenores sobre os acontecimentos e, frequentemente, repetirem-se em anos diferentes.
Uma dificuldade adicional reside em compreender exatamente a que ano se está a referir, uma vez que a prática de fixar o início do ano a 1 de janeiro ainda não tinha sido implementada. Alguns escribas parecem reconhecer o início do novo ano como sendo o Natal, enquanto outros o datam na Páscoa. Assim, uma entrada relativa ao ano de 519 pode, na realidade, ter ocorrido em 520 ou em 518. No caso de Cerdic, estes problemas obrigaram os historiadores a chegar a um consenso sobre quais as datas mais provavelmente corretas e a partir daí prosseguir o seu trabalho. Embora seja possível construir uma narrativa da vida e do reinado de Cerdic através deste método, isso não significa que as datas geralmente aceites sejam as corretas.
O historiador John Morris, na sua controversa obra de 1973, The Age of Arthur (A Era de Artur), faz muitas afirmações que têm sido criticadas pelos historiadores, mas que, muitas vezes, são precisas ao descrever as fontes em que é necessário basear-se. Relativamente Às Crónicas Anglo-Saxónicas, escreve ele:
As primeiras entradas relativas ao Wessex n'A Crónica Saxónica são excepcionalmente confusas, repetidas sob datas diferentes e, à primeira vista, contraditórias. A confusão tem uma causa específica. As ambiguidades mais simples dos anais de Kent e Sussex são consequências de uma memória que se desvanece e de uma tradição mal compreendida; mas as entradas relativas ao Wessex são um artifício deliberado de estudiosos do século IX, concebido para servir as necessidades políticas da sua própria época. A sua narrativa é que o reino de Wessex deve a sua origem a Cerdic, que comandava várias forças saxónicas distintas sob o comando de líderes identificados, numa data que foi originalmente fixada por volta de 480. Cerdic é o único fundador de um reino inglês que possui um nome inequivocamente britânico. As suas árvores genealógicas, por si só, são invenções evidentes, pois os seus «antepassados» foram retirados das tradições simples de outras dinastias inglesas, e os reis posteriores de Wessex são apresentados como seus descendentes através de ligações improváveis e contraditórias que atribuem a alguns deles dois ou três pais diferentes.
(págs. 103-104)
A versão padrão da história de Cerdic a que Morris se refere relata como Cerdic chegou a Hampshire em 495 com o seu filho, Cynric, em cinco navios e derrotou instantaneamente os galeses (ou, em alternativa, os britânicos). Após esta vitória, estabeleceu uma base em Wessex, a partir da qual prosseguiu as suas campanhas para fundar o Reino dos Saxões Ocidentais até 519, ano em que foi coroado rei. Esta versão da sua vida baseia-se nas entradas d'As Crónicas Anglo-Saxónicas, que dizem:
- 495: Neste ano, chegaram à Grã-Bretanha dois líderes, Cerdic e o seu filho Cynric, com cinco navios, num local chamado Cerdic’s-ore. E travaram batalha contra os galeses no mesmo dia.
- 508: Neste ano, Cerdic e Cynric mataram um rei britânico, cujo nome era Natanleod, e cinco mil homens que o acompanhavam. Depois disso, a terra recebeu o nome de Netley, em sua honra, desde ali até Charford.
- 514: Neste ano, os saxões ocidentais chegaram à Grã-Bretanha, com três navios, no local chamado Cerdic’s-ore. E Stuf e Whitgar lutaram contra os britânicos e puseram-nos em fuga.
- 519: Neste ano, Cerdic e Cynric assumiram o governo dos saxões ocidentais; no mesmo ano, travaram batalha contra os britânicos num local agora chamado Charford. Desde esse dia que reinam os filhos dos reis saxões ocidentais.
- 527: Neste ano, Cerdic e Cynric lutaram contra os britânicos no local chamado Cerdic’s-ley.
- 530: Neste ano, Cerdic e Cynric conquistaram a Ilha de Wight e mataram muitos homens em Carisbrook.
- 534: Neste ano faleceu Cerdic, o primeiro rei dos saxões ocidentais. O seu filho Cynric sucedeu-lhe no governo e reinou posteriormente durante 26 invernos. E concederam aos seus dois sobrinhos, Stuf e Wihtgar, toda a Ilha de Wight.
Este relato é bastante direto, mas carece dos detalhes necessários para criar uma história completa; é por isso que escritores posteriores sentiram a necessidade de acrescentar os seus próprios detalhes. Baseando-se nas fontes mais antigas, o historiador George H. Townsend criou a sua obra The Manual of Dates (O Manual das Cronologias) em 1862 e, relativamente ao ano de 520, escreveu que Cerdic «lutou contra o famoso Rei Artur». Outros estudiosos também sugeriram uma forte ligação com Artur, alguns afirmando que Cerdic era filho ou sobrinho de Artur e outros alegando que eram adversários.
A batalha de 527 em Cerdic’s-ley é outra possibilidade (para além do conflito de 520), proposta como uma batalha entre Cerdic e Artur. É aceite, no entanto, que em 530 Cerdic conquistou a Ilha de Wight, tendo já estabelecido o seu reino e dispondo claramente de um exército e de uma marinha. Estas entradas nas Crónicas e as interpretações posteriores de outras fontes ilustram a dificuldade em conciliar as fontes da época numa narrativa única e coesa.
O historiador Nennius, que se pensa ter escrito a sua História dos Britânicos em 828, afirma que Artur nunca perdeu uma única das suas famosas doze batalhas, que teriam ocorrido no século VI. Parece improvável que, se Artur tivesse derrotado Cerdic em 520 ou 527, lhe tivesse permitido continuar a governar em Wessex, muito menos conquistar a Ilha de Wight em seu próprio nome e para a sua própria glória.
Os historiadores John C. e Joseph W. Rudmin afirmam que a dificuldade de conciliar as fontes antigas sobre Cerdic com as de Artur é facilmente resolvida assim que se reconhece que eram a mesma pessoa. No que diz respeito à fundação de Wessex por Cerdic e ao seu subsequente reinado, bem como à alegação de que Artur governou o mesmo território na mesma época, escrevem:
Não há uma boa solução para o problema de Artur presidir ao território e à época da fundação do reino saxão de Wessex — a menos que tenha sido ele próprio a presidi-lo! Se, no ano 500, o governante do centro-sul da Grã-Bretanha era Artur, e o governante do centro-sul da Grã-Bretanha era Cerdic, então Artur era Cerdic. Durante mais de mil anos, a literatura britânica teve um rei perdido e uma vitória esquecida. Agora, a identidade do herói nacional do País de Gales foi descoberta, e ele revelou-se o fundador do reino da Inglaterra.
(pág. 24)
As provas, salientam eles, falam por si próprias assim que se percebe que Cerdic é idêntico ao herói galês Caradoc Vreichvras (também conhecido como Caradoc Breifbras nas lendas arturianas). Para citar apenas algumas das comparações que fazem: «Artur» e «Vreichvras» significam ambos «braço forte»; ambos estão associados a Wessex e, especialmente, a Winchester; ambos são filhos ilegítimos; ambos dominam a região mais tarde conhecida como Wessex por volta do ano 500; Artur é filho de Uther e Igerna, enquanto Cerdic é filho de Elessa e Isaive; e Arturo casa-se com Guinevere da Cornualha, Cerdic casa-se com Guignier da Cornualha. Afirma-se que todas estas semelhanças provam que Artur e Cerdic são uma única figura histórica cujas proezas foram tão notáveis que foram mitificadas por escritores posteriores como as Lendas Arturianas, que foram finalmente recolhidas, editadas e substancialmente ampliadas por Sir Thomas Malory no século XV.
O problema com a tese dos Rudmin, como eles próprios admitem, é que «parte de demasiadas suposições» e, por isso, «segundo os padrões de alguns historiadores... não é um artigo aceitável» (pág. 2). Ainda assim, a sua tese é interessante de se considerar, mesmo que não possa ser provada de forma definitiva. Um dos problemas mais graves da sua tese é que, se o Cerdic britânico for idêntico ao herói galês Vreichvras — mesmo que isso pudesse ser provado —, continua a existir a dificuldade de comprovar que Vreichvras era o Artur, uma vez que Vreichvras é conhecido como um Cavaleiro da Távola Redonda que serviu tanto sob o comando de Uther como de Artur e nunca é identificado como sendo nenhum dos dois. É reconhecido como o antepassado dos reis posteriores de Gwent na lenda galesa e como um nobre galês, mas não como rei dos britânicos.
Embora seja improvável que Cerdic fosse Artur, é ainda menos provável que fosse um saxão. Apesar d'As Crónicas Anglo-Saxónicas parecerem apresentar Cerdic como um líder militar saxão, vários historiadores, para além de Morris ou dos Rudmins (como o professor Johann P. Sommerville, da Universidade de Wisconsin), observaram que «Cerdic» é um nome britânico, e não saxão. A tese defendida por vários historiadores é que Cerdic era um conde britânico que foi expulso da região e se refugiou na Bretanha, de onde regressou mais tarde, em 495, à frente de uma força saxónica.
As evidências de que Cerdic era um conde britânico associado aos saxões são sugeridas não só pelo seu nome, mas também por passagens nas obras de Nennius e Godofredo de Monmouth. O historiador Frank D. Reno, ao escrever sobre a nacionalidade de Cerdic, afirma:
Plummer, a maior autoridade em matéria dos manuscritos das Crónicas, tem o seguinte a dizer sobre a entrada de 495, a primeira em que Cerdic surge: «495 — A chegada dos saxões ocidentais; a fundação, como se veio a verificar, da Inglaterra. É curioso constatar que o fundador tradicional do reino dos saxões ocidentais, a fonte à qual remontam todas as linhagens saxónicas ocidentais, tenha um nome como Cerdic, Certic, tão semelhante ao galês Ceredig, Ceretic. Vale a pena referir que, em Nennius, no Capítulo 37, Ceretic é o nome do intérprete do Hengist».
(pág. 111)
Na passagem do Capítulo 37, um tal «Ceretic» atua como intérprete entre Vortigern, rei dos britânicos, e Hengist, dos saxões, e os historiadores têm afirmado que Cerdic, o posterior rei dos saxões ocidentais, é o mesmo homem que Ceretic, o intérprete de Nennius. O estudioso Richard Barber cita as linhas de Nennius relativas a Ceretic na corte de Vortigern:
Nenhum outro britânico entre os britânicos conhecia o saxão, exceto este homem; e ele dedicou-se a adquirir conhecimento dessa língua (ou a lê-la) até ser capaz de compreender a língua saxónica.
(The Figure of Arthur, pág. 112)
Cerdic, de acordo com estas alegações, era um conde influente que falava a língua saxónica e que também comandava uma força militar impressionante. Godofredo de Monmouth menciona Cerdic como aliado de Hengist e Vortigern no Capítulo VI.13 da sua História dos Reis da Bretanha, quando Vortigern e Hengist apelam a «guerreiros valentes» para que venham ajudá-los a derrotar os bárbaros: «e Cerdic chegou com trezentos navios (Nennius diz que eram 40), todos repletos de um exército armado, que Vortigern recebeu com gentileza, concedendo-lhes generosas recompensas. Pois, graças a eles, conquistou todos os seus inimigos e venceu todas as batalhas travadas.»
A certa altura, após o seu serviço a Vortigern, Cerdic partiu do continente para a Bretanha, reuniu ali uma força saxónica e regressou em 495. A aparente facilidade das suas vitórias entre 495 e 519 sugere a alguns historiadores que ele já era um líder bem conhecido e respeitado. Os historiadores (incluindo os Rudmins) apontam para o nome original da região de Wessex, «Gewisse», como mais uma prova de que Cerdic e os seus seguidores já eram conhecidos na região antes de 495, uma vez que interpretam o topónimo «Gewisse» como estando ligado à palavra alemã «gewiss» («certamente» ou «seguro»), que era a mesma palavra no antigo saxão e tinha o mesmo significado. O Reino de Gewisse, de acordo com este argumento, teria sido conhecido por esse nome porque Cerdic era «certamente conhecido» ou «sem dúvida conhecido» e, por isso, o seu território era chamado «o Reino Daquele Que É Conhecido». Outras explicações para o facto de Wessex ter sido originalmente conhecido como o Reino de Gewisse fazem muito menos sentido, tais como a alegação de que recebeu esse nome em homenagem à mãe de Cerdic.
A verdade por trás do nome original do reino, tal como grande parte da vida de Cerdic, poderá nunca vir a ser conhecida e continua a ser debatida nos dias de hoje. A noção de «precisão» na narração de acontecimentos históricos não era avaliada com os mesmos critérios nos séculos IX a XII como o é hoje e, tal como referido acima, cada fonte parece indicar um tipo de narrativa ligeiramente, ou significativamente, diferente. Até mesmo Nennius, que é frequentemente considerado fiável, é suspeito; como observa Barber, «Nennius... é simultaneamente um antiquário com motivos políticos e um autor consciente das tradições continentais» (pág. 85).
A sua narrativa, portanto, deve ser lida à luz desses motivos e tradições, e não como uma história objetiva. Godofredo de Monmouth tem sido há muito criticado por inventar grandes segmentos da sua «história», incluindo a sua alegação de que se limita a traduzir uma obra antiga que encontrou. Cada autor que abordou o tema da vida e do reinado de Cerdic parece ter tido uma agenda específica a promover (conforme afirmado por Morris, acima). O historiador Roger Collins comenta isto, no que diz respeito à «história» e aos topónimos, escrevendo:
Existe um abismo cronológico intransponível entre o suposto período de fundação do reino hipotético de Wessex, no final do século V, e o período seguinte, em que surgem aqueles que se diz serem membros da sua casa reinante, na segunda metade do século VI. Grande parte da informação relativa à fase inicial tem um caráter distintamente «folclórico» ou racionalizante: por exemplo, Cerdic e Cynric desembarcam num local chamado Cerdicesora; matam um rei «galês» chamado Natanleod e, subsequentemente, esse distrito passa a chamar-se Natanleod (Netley, perto de Southampton), e assim por diante. É de suspeitar que os topónimos tenham precedido as pessoas a que se referem, e não o contrário, e que a história destas últimas tenha sido inventada para explicar a existência dos primeiros.
(pág. 178)
Este mesmo paradigma poderia aplicar-se ao nome original do reino antes de este ser conhecido como «O Reino dos Saxões Ocidentais» e, posteriormente, abreviado para «Wessex». Também pode ser verdade que Cerdic fosse, de facto, conhecido na região e já se tivesse estabelecido firmemente ali antes da sua partida, por qualquer motivo, para a Bretanha; ou talvez não. Não há forma de afirmar com autoridade a veracidade de muitos dos supostos «factos» relativos à vida de Cerdic, salvo que ele era conhecido como o fundador de Wessex.
Até mesmo a afirmação de que todos os monarcas ingleses descendem de Cerdic é questionável, uma vez que, como observa Collins, «A informação genealógica é igualmente duvidosa. Ceawlin nunca é especificado na Crónica quanto à sua relação com Cerdic e Cynric, embora se diga, na entrada relativa ao ano de 560, que ele sucedeu ao reino de Wessex que eles criaram» (pág. 178). A genealogia duvidosa é o resultado de escribas posteriores com os seus próprios interesses; a nacionalidade de Cerdic teve de ser alterada pela genealogia posterior do século IX para o alinhar com os anglos, que cresceram em poder a partir do seu reino da Nortúmbria para finalmente governarem todas as terras, em vez de com os britânicos, que se contavam entre os povos que conquistaram. Morris escreve:
Um governante com um nome britânico, sem qualquer tradição antiga de antepassados ingleses ou descendentes ingleses, é claramente britânico. Embora fosse o primeiro governante do futuro Wessex conhecido pelos ingleses posteriores, a reivindicação dos reis do Wessex do século IX à soberania sobre todos os ingleses não podia basear-se na autoridade de um rei britânico. Ele teve de ser tratado como um inglês. As relações são inventadas; mas a essência da tradição que teve de ser dissimulada é, ela própria, antiga. Cerdic era considerado o governante da região de Winchester-Southampton no final do século V, o comandante dos saxões que desembarcaram nessa região e um rei que lutou consistentemente ao lado dos ingleses contra os exércitos britânicos... Escavações localizam e datam as habitações dos seus federados e sugerem onde ele os recrutou.
(pág. 104)
Parece que existiu, outrora, um homem chamado Cerdic que chegou ou regressou à Inglaterra em 495, fundou o Wessex e estabeleceu um reino poderoso que, com o tempo, evoluiria para a nação conhecida como Inglaterra. A Inglaterra, a «terra dos anglos», acolheu este antigo rei como seu fundador, anglicizou-o através de genealogias e fez dele um dos seus. Quem era realmente Cerdic, o que fez e por que razão causou tal impacto, continua a ser um mistério; o Cerdic que foi criado pelos escritores posteriores é o Cerdic da história.