Sushruta (cerca de século VII ou VI a.C.) foi um médico da Índia antiga, hoje conhecido como o «Pai da Medicina Indiana» e o «Pai da Cirurgia Plástica» por ter inventado e desenvolvido procedimentos cirúrgicos. A sua obra sobre o tema, a Sushruta Samhita (Compêndio de Sushruta), é considerada o texto mais antigo do mundo sobre cirurgia plástica e é altamente valorizada como parte da Grande Trilogia da Medicina Ayurvédica; sendo as outras duas a Charaka Samhita, que a precedeu, e a Astanga Hridaya, que se seguiu.

A Medicina Ayurvédica está entre os sistemas médicos mais antigos do mundo, remontando ao Período Védico da Índia (c. 5000 a.C.). O termo Ayurveda traduz-se como «conhecimento da vida» ou «ciência da vida» e consiste na prática de uma cura holística que incorpora o conhecimento médico «convencional» com conceitos espirituais e remédios à base de ervas, tanto no tratamento como na prevenção de doenças. Era praticada na Índia há séculos antes mesmo do nascimento do médico grego Hipócrates (cerca de 460 - cerca de 379 a.C.), conhecido como o Pai da Medicina.

A Grande Trilogia da Medicina Ayurvédica descreve procedimentos cirúrgicos, técnicas de diagnóstico e tratamentos para várias doenças e lesões, e fornece até instruções aos médicos sobre como determinar quanto tempo um doente viverá (na Charaka Samhita). A obra de Sushruta padronizou e consolidou o conhecimento anterior através de descrições cuidadosas de como um médico deve praticar a arte, bem como de procedimentos específicos, incluindo a realização de reconstruções cirúrgicas plásticas e a remoção de cataratas.

O Astanga Hridaya combina as obras de Charaka (século VII ou VI a.C.) e de Sushruta, apresentando um texto abrangente sobre abordagens cirúrgicas e médicas ao tratamento, ao mesmo tempo que oferece a sua própria perspetiva única. A obra de Sushruta, no entanto, oferece a visão mais profunda sobre as artes médicas das três, devido aos comentários que ele faz entre as discussões sobre várias doenças e tratamentos ou incluídos nas mesmas.

Pouco se sabe sobre a vida de Sushruta, uma vez que a sua obra se centra na aplicação de técnicas médicas e não inclui quaisquer detalhes sobre quem ele era ou de onde provinha. Nem mesmo o seu nome de nascimento é conhecido, pois «Sushruta» é um epíteto que significa «renomado». Costuma-se situá-lo nos séculos VII ou VI a.C., mas poderá ter vivido e trabalhado já em 1000 a.C.; embora isso pareça improvável, uma vez que Charaka viveu pouco antes dele ou foi seu contemporâneo. Tem sido associado ao Sushruta mencionado no Mahabharata, filho do sábio Visvamitra, mas esta afirmação não é aceite pela maioria dos estudiosos.

Tudo o que se sabe com certeza sobre ele é que exerceu medicina no norte da Índia, na região da atual Varanasi (Benares), nas margens do rio Ganges. Era considerado um grande curandeiro e sábio, cujos dons se acreditava terem sido concedidos pelos deuses. Segundo a lenda, os deuses transmitiram os seus conhecimentos médicos ao sábio Dhanvantari, que os ensinou ao seu discípulo Divodasa, o qual, por sua vez, instruiu Sushruta.

A prática da cirurgia já estava há muito estabelecida na Índia na época de Sushruta, mas numa forma menos avançada do que aquela que ele praticava. Ele desenvolveu significativamente diferentes técnicas cirúrgicas (como a utilização da cabeça de uma formiga para fazer suturas) e, mais notavelmente, inventou a prática da cirurgia estética. A sua especialidade era a rinoplastia, a reconstrução do nariz, e o seu livro instrui os outros sobre exatamente como um cirurgião deve proceder:

A parte do nariz a ser coberta deve ser primeiro medida com uma folha. Em seguida, deve ser dissecado um pedaço de pele do tamanho necessário da pele viva da bochecha e virado para trás para cobrir o nariz, mantendo um pequeno pedículo ligado à bochecha. A parte do nariz à qual a pele deve ser fixada deve ser exposta, cortando-se o coto nasal com uma faca. O médico deve então colocar a pele sobre o nariz e suturar as duas partes rapidamente, mantendo a pele devidamente elevada através da inserção de dois tubos de eranda (a planta do óleo de rícino) na posição das narinas, de modo a que o novo nariz assuma a forma adequada. Uma vez devidamente ajustada, a pele deve ser polvilhada com um pó de alcaçuz, sândalo vermelho e bérberis. Por fim, deve ser coberta com algodão e deve ser aplicado constantemente óleo de sésamo limpo. Quando a pele se tiver unido e granulado, se o nariz estiver demasiado curto ou demasiado comprido, o meio do retalho deve ser dividido e deve procurar-se alargá-lo ou encurtá-lo.

(Sushruta Samhita, I.16)

O vinho era utilizado como anestésico e os doentes eram encorajados a beber em abundância antes de um procedimento. Quando o doente estava embriagado ao ponto de ficar inconsciente, era amarrado a uma mesa baixa de madeira para impedir movimentos e a operação começava com o cirurgião sentado num banco e os instrumentos numa mesa próxima. O uso do vinho levou ao desenvolvimento de um anestésico que combinava álcool e incenso de canábis para induzir o sono ou entorpecer os sentidos até um estado de estupor durante procedimentos como a rinoplastia.

A rinoplastia constituiu um avanço especialmente importante na Índia devido à tradição de longa data da rinotomia (amputação do nariz) como forma de castigo. Os criminosos condenados eram frequentemente submetidos à amputação do nariz para os marcar como pessoas não dignas de confiança, mas a amputação era também frequentemente praticada em mulheres acusadas de adultério — mesmo que a sua culpa não tivesse sido provada. Uma vez marcada desta forma, a pessoa tinha de viver com o estigma para o resto da vida. A cirurgia reconstrutiva, portanto, oferecia uma esperança de redenção e normalidade.

Sushruta atraiu vários discípulos, conhecidos como Saushrutas, que tinham de estudar durante seis anos antes mesmo de começarem a formação prática em cirurgia. Iniciavam os seus estudos prestando um juramento de se dedicarem à cura e de não causarem danos aos outros; muito semelhante ao posterior Juramento de Hipócrates, da Grécia, que ainda hoje é recitado pelos médicos. Depois de os alunos terem sido aceites por Sushruta, este instruía-os em procedimentos cirúrgicos, fazendo-os praticar cortes em vegetais ou animais mortos para aperfeiçoarem o comprimento e a profundidade de uma incisão. Assim que os alunos provassem ser capazes de trabalhar com vegetais, cadáveres de animais ou madeira macia ou podre — e tivessem observado cuidadosamente procedimentos reais em doentes —, eram então autorizados a realizar as suas próprias cirurgias.

Estes alunos eram formados pelo seu mestre em todos os aspetos das artes médicas, incluindo a anatomia. Uma vez que não havia proibição de dissecação de cadáveres, como aconteceu na Europa durante séculos, os médicos podiam trabalhar com os mortos para compreender melhor como ajudar os vivos. Sushruta sugere colocar o cadáver numa jaula (para o proteger dos animais) e mergulhá-lo em água fria, como um rio ou ribeiro de corrente, e depois verificar a sua decomposição para estudar as camadas da pele, a musculatura e, finalmente, a disposição dos órgãos internos e do esqueleto. À medida que o corpo se decompunha e ficava mole, o médico podia aprender muito sobre como cada aspeto funcionava e como se poderia ajudar um doente a ter uma vida mais saudável.

Sushruta escreveu o Sushruta Samhita como um manual de instruções para que os médicos tratassem os seus doentes de forma holística. A doença, afirmava ele (seguindo os preceitos de Charaka), era causada por um desequilíbrio no corpo, e era dever do médico ajudar os outros a manter o equilíbrio ou a restaurá-lo caso tivesse sido perdido. Para tal, qualquer pessoa que se dedicasse à prática da medicina tinha de ser, ela própria, equilibrada. Sushruta descreve o profissional de saúde ideal, com foco num enfermeiro, da seguinte forma:

Apenas aquela pessoa é apta a cuidar de um doente, ou a estar ao seu lado, que tenha a cabeça fria e um comportamento agradável, que não fale mal de ninguém, que seja forte e atenta às necessidades do doente e que siga de forma rigorosa e incansável as instruções do médico.

(I.34)

As instruções do médico devem ser seguidas sem questionar, devido ao nível de conhecimento e perícia na aplicação alcançado. Um médico deve estar sempre focado em tentar prevenir doenças no corpo, e isso só pode ser alcançado se compreender como o corpo funciona em todos os aspetos. Para Sushruta, a prática da medicina era uma jornada de compreensão para a qual um médico necessitava de uma inteligência perspicaz, a fim de reconhecer o que era necessário para uma boa saúde e como aplicar esse conhecimento em qualquer situação. Numa passagem, ele deixa claro o seu objetivo — ou um dos seus objetivos — ao escrever o seu compêndio:

A ciência da medicina é tão incompreensível como o oceano. Não pode ser descrita na íntegra, nem mesmo em centenas ou milhares de versos. Pessoas limitadas, incapazes de captar o verdadeiro significado da ciência do raciocínio, não conseguiriam adquirir uma compreensão adequada da ciência da medicina, mesmo que esta fosse abordada de forma elaborada em milhares de versos. Os princípios ocultos da ciência da medicina, tal como explicados nestas páginas, só brotariam, cresceriam e dariam bons frutos sob o calor propício de um génio médico. Um médico erudito e experiente tentaria, portanto, compreender os princípios ocultos aqui inculcados com a devida cautela e com referência a outras ciências.

(XIX.15)

Era necessário ser culto, inteligente e, acima de tudo, racional, para praticar medicina, mas também era necessário reconhecer as várias influências que poderiam afetar a saúde de uma pessoa. Charaka já tinha enfatizado a importância de compreender o ambiente e os marcadores genéticos de um doente para tratar a doença, e Sushruta desenvolveu esta ideia, encorajando os seus alunos a fazer perguntas ao doente e a incentivar respostas sinceras. Se um médico conseguisse excluir fatores ambientais ou escolhas de estilo de vida na doença de um doente, então a genética poderia ser considerada. Sushruta, tal como Charaka, compreendia que uma doença transmitida geneticamente poderia não ter nada a ver com a saúde dos pais do doente, mas possivelmente com um ou ambos os avós.

Se a doença não fosse genética e não tivesse nada a ver com o ambiente do doente, então era muito provável que fosse causada pelo seu estilo de vida, o que tinha criado um desequilíbrio dos doshas (humores) da bílis, da fleuma e do ar. Os doshas eram produzidos quando o corpo processava os alimentos ingeridos. A alimentação de uma pessoa, portanto, era considerada de importância vital para a manutenção da saúde, e era encorajada uma dieta vegetariana. Sushruta sugere fazer perguntas ao doente sobre a alimentação, bem como outras relacionadas com o exercício físico e até mesmo com os seus pensamentos e atitudes, uma vez que estes também poderiam afetar a saúde.

Sushruta reconhecia que a saúde ideal só poderia ser alcançada através da harmonia entre a mente e o corpo. Este estado poderia ser mantido por meio de uma nutrição adequada, exercício físico e pensamentos racionais e inspiradores. Em certos casos, no entanto, quando o desequilíbrio do doente era grave, a cirurgia era considerada a melhor opção. Para Sushruta, de facto, a cirurgia era o bem supremo na medicina, pois podia produzir os resultados mais positivos mais rapidamente do que outros métodos de tratamento.

A Sushruta Samhita dedica capítulo após capítulo às técnicas cirúrgicas, enumerando mais de 300 procedimentos cirúrgicos e 120 instrumentos cirúrgicos, para além das 1 120 doenças, lesões, afeções e respetivos tratamentos, bem como mais de 700 ervas medicinais e a sua aplicação, sabor e eficácia, que também são abordados em profundidade. Alguns estudiosos (como Vigliani e Eaton) têm afirmado que a cirurgia era um último recurso no tratamento, uma vez que os antigos tentavam evitar incisões no corpo humano e exploravam outros métodos de cura com muito mais frequência. Embora haja alguma verdade em partes da sua afirmação, isso não se aplica a Sushruta. A cirurgia não era considerada um último recurso por Sushruta, mas sim, na verdade, o melhor meio de aliviar o sofrimento em determinadas condições.

Em vários capítulos ao longo do livro, é descrita uma condição e sugerido um tratamento que inclui detalhes sobre como um médico deve realizar uma determinada cirurgia do início ao fim. Estes detalhes, de facto, são o que distingue a Sushruta Samhita da anterior Charaka Samhita: Charaka estabeleceu o conhecimento e a prática médicos, enquanto Sushruta desenvolveu técnicas cirúrgicas e, assim, fundou a prática conhecida como Salya-tantra ou «ciência cirúrgica».

De acordo com os estudiosos S. Saraf e R. Parihar,

A ciência cirúrgica antiga era conhecida como Salya-tantra. O Salya-tantra abrange todos os processos que visam a remoção dos fatores responsáveis por causar dor ou sofrimento ao corpo ou à mente. Salya (salya — instrumento cirúrgico) refere-se a pedaços partidos de uma flecha ou de outras armas afiadas, enquanto tantra significa manobra. Os pedaços partidos das flechas ou de armas pontiagudas semelhantes eram considerados os objetos mais comuns e perigosos que causavam feridas e exigiam tratamento cirúrgico.

Sushruta descreveu a cirurgia em oito categorias: Chedya (excisão), Lekhya (escariacção), Vedhya (punção), Esya (exploração), Ahrya (extração), Vsraya (evacuação) e Sivya (sutura). Todos os princípios básicos da cirurgia plástica, como planeamento, precisão, hemostasia e perfeição, ocupam um lugar importante nos escritos de Sushruta sobre este tema. Sushruta descreveu vários métodos reconstrutivos ou diferentes tipos de defeitos, como a libertação da pele para cobrir pequenos defeitos, a rotação de retalhos para compensar a perda parcial e retalhos pediculados para cobrir a perda total de pele numa área.

(pág. 5)

Estas técnicas foram aplicadas a uma variedade de condições, que iam desde a reconstrução plástica do nariz e das bochechas até à cirurgia de hérnias, partos por cesariana, remoção da próstata, extração dentária, remoção de cataratas, tratamento de feridas e hemorragias internas, entre muitas outras. Além disso, diagnosticou e definiu doenças dos olhos e dos ouvidos, prescreveu colírios e gotas auriculares, fundou a escola de embriologia, desenvolveu próteses de membros e aprofundou o conhecimento sobre o corpo humano através da dissecação e da compreensão da anatomia humana daí resultante.

O seu conhecimento sobre o funcionamento do corpo permitiu-lhe curar sem recorrer a explicações sobrenaturais para as doenças ou ao uso de feitiços ou amuletos na cura, mas isso não significa que ele menosprezasse o poder da crença em forças superiores. Os seus comentários ao longo do livro deixam claro que um médico deve estar ciente de, e fazer uso de, todas as facetas da condição humana, a fim de tratar um doente e manter uma saúde ideal.

O Sushruta Samhita*aborda praticamente todos os aspetos das artes médicas, mas era desconhecido fora da Índia até por volta do século VIII d.C., quando foi traduzido para árabe pelo califa Mansur (cerca de 753-774). Mesmo assim, o texto permaneceu desconhecido no Ocidente até ao final do século XIX, quando foi descoberto o chamado Manuscrito de Bower, que menciona Sushruta pelo nome numa lista de sábios e inclui também uma versão da Charaka Samhita.

O Manuscrito de Bower deve o seu nome a Hamilton Bower, o oficial do exército inglês que o adquiriu em 1890, e data de entre os séculos IV e VI. A existência deste texto, escrito em sânscrito em casca de bétula, sugere que possa ter havido outros — possivelmente muitos — que preservaram os escritos de Sushruta e de outros sábios médicos como ele. No entanto, mesmo antes da descoberta do Manuscrito de Bower, os funcionários e soldados britânicos na Índia, no século XIX, já tinham escrito para casa sobre procedimentos cirúrgicos surpreendentes, especialmente os de cirurgia plástica reconstrutiva, que tinham testemunhado no país. As suas descrições destas cirurgias correspondem de perto às instruções de Sushruta no seu compêndio.

Não existia uma tradução para inglês do Sushruta Samhita até que esta foi realizada pelo estudioso Kaviraj Kunja Lal Bhishagratna em três volumes, entre 1907 e 1916. Nessa altura, evidentemente, o mundo em geral já tinha aceite Hipócrates como o Pai da Medicina e, além disso, a tradução de Bhishagratna não recebeu o tipo de atenção internacional que merecia. O nome de Sushruta permaneceu relativamente desconhecido até há relativamente pouco tempo, à medida que as práticas médicas ayurvédicas se tornaram mais amplamente aceites, e ele começou a receber reconhecimento pela sua enorme contribuição para o campo da medicina em geral e para a prática cirúrgica em particular.

A visão holística de Sushruta sobre a cura, com ênfase no doente como um todo e não apenas nos sintomas apresentados, deveria ser familiar a qualquer pessoa nos dias de hoje. Atualmente, os médicos elaboram o historial clínico de um doente com base nas perguntas feitas, investigam possíveis causas genéticas para um problema e prescrevem tratamentos que vão desde os médicos aos cirúrgicos, passando pelas chamadas práticas «alternativas». Além disso, a forma como um médico lida com o doente nos dias de hoje é considerada importante para estabelecer confiança e promover o sucesso do tratamento. Estas práticas e políticas são consideradas inovações quando comparadas com as que vigoravam ainda em meados do século XX, mas Sushruta já as tinha implementado há mais de 2 000 anos.